domingo, 2 de junho de 2013

ENQUANTO ISSO NUMA CORRIDA...



Marielly Cassimiro entrou de vez na onda correr e pedalar. Filha de um traficante de medicamentos, viu sua vida mudar rapidamente quando veio morar na capital. Acostumada a brincar num terreiro de barro batido, agora ela mora numa cobertura à beira-mar.  Mas ainda não entende porque as pessoas do prédio não falam com  ela e nem com sua família...

Mari arranjou uma amiga que é filha de um calunista social.  A menina aprendeu com o pai toda a arte da trambicagem do alpinismo social.  Esta arte consiste em sugar ao máximo a grana de novos ricos que almejam ser gente no meio social da cidade.  Luíra começou então  a dar aulas de etiqueta social a Marielly, agora conhecida como Mari.

A primeira aula era como entrar nas redes sociais.  Mari tinha Orkut, mas Luíra cancelou esta conta e fez um facebook  pra ela.  Juntas foram a um shopping comprar um iphone para que ela postasse as fotos no instagram.  Luíra não se fez de rogada e comprou um iphone 5 na conta da bobinha.  Mari queria ir a um filme 3D.  Comprou o ingresso para Luíra e foram.  As primeiras postagens do facebook de Mari foram fotos e mais fotos tiradas no cinema com os óculos 3D pra mandar pras amigas de Pau d´Alho.  Depois do cinema, pra fazer mais uma boquinha gratuita, Luíra levou  Mari pra um restaurante japonês.  Mari detestou.  Só pensava no cuscuz com carne de sol e inhame com graxa.  Achou muito estranho ter que comer com espetinhos de churrasco.  Achou muito mais estranho comer peixe cru.  Então, colocou  um monte de salmão, polvo, linguado e  atum no prato e levou para a sessão de massas.  Chegando lá pediu para que o cozinheiro assasse a peixada completa.  Misturou com macarrão, colocou molho à bolonhesa e misturou com uma picanha bem passada.  Achou bacana um restaurante com tanta variedade...   A dificuldade mesmo foi na hora de usar o hashi. Luíra estava comendo uma folha de alface e um sashimi por causa da dieta, usando um hashi amarrado com elástico.  Mari não entendeu nada.  Na terra dela,  pinça era feita de metal e não servia pra comer carne.  Ficou puta porque não conseguia pegar o macarrão com o hashi.  Por isso Luíra era tão magrinha, pensou.  Saiu do restaurante se tremendo de fome e se fartou num espetinho logo em frente ao famoso restaurante.

O sonho de Luíra era fazer um book em Londres para colocar nos outdoors da cidade.  Já tinha morado no Canadá onde trabalhava de copeira num hotel da periferia de Montreal.  Mas Mari tinha 17, como fazer um book de debutantes? Mas o pai de Luíra, famoso calunista social, inventou pra família de Mari  que era a última moda em Miami comemorar aniversário de pré-dezoito anos.  Mais sabido do que o calunista, seu Zeca de Cassimiro, de longa jornada na bandidagem,  não aceitou a proposta.

Mesmo assim, Luíra queria se dar bem com a grana de Mari.  Disse à menina que a moda agora era correr em maratonas e pedalar.  Na corrida, o lucro seria pequeno, mas no pedal...  Levou Mari a uma loja de bicicletas.  O dono da loja, conhecido por traficar peças do Paraguay, apresentou a Mari o que ele tinha de mais caro.  Mari queria uma caloi.  O vendedor fez um belo discurso sobre a bike (bicicleta é coisa de pobre da construção civil) importada, os arcos, os pneus, os freios, as marchas, o suporte para carro, as luvas, o capacete, o sapato, a roupa, os equipamentos para consertar pneus furados, os equipamentos de água, tudo...  Luíra combinou com o dono da loja racharem os lucros dos equipamentos comprados por Mari.  O rapaz enrolou Luíra e nunca pagou seus 10%.  Logo depois das compras foram para o Cabo Branco inaugurar a bike.  Mari se achou meio ridícula com aquela roupinha apertadinha e aquele capacete que mais parecia o ET de Alien, o oitavo passageiro.  Após 3 quedas e a completa invisibilidade, Mari desistiu do pedal.  Não entendi porque seu pai tinha que colar um adesivo de “Respeite o ciclista, distância de 1,5m”  se a maioria dos donos de caminhoneta atropelavam os ciclistas de bike sem grife, ou seja, os pobres que usam a bicicleta como meio de subsistência.
Descontente com a bike,  resolveu ingressar num seleto grupo de corredores.  A febre era corrida: corrida em Recife, meia maratona do Rio, maratoninha de São Paulo, corrida da melhor idade, corrida “Salve as Baleias”, corrida pelo fim da violência nas corridas...  Os corredores sempre se reuniam para comer numa lanchonete que só servia coisas detestáveis.  Todo mundo só falava num tal de açaí na tigela, um sorvete sem gosto de uma fruta sem gosto, comido com uma farofa sem gosto.  Ainda bem que tinha uma bananinha picada pra disfarçar. Fora uma comida chamada vegana.  Vários ciclistas adoravam comer um pastel tipo “bate entope” sem gosto de nada acompanhado de um suco energético que tinha gosto de capim moído.  Luíra comprou uns biscoitos orgânicos e distribuiu com a turma do pedal.  Mari comeu e achou o gosto parecido com móveis aglomerados de madeira prensada. Cadê a carne?  Cadê a graxa?  Nada ali tinha gosto de comida.  Até o bolo era feito com uma farinha de trigo integral, cheia de taliscas, com gosto de mofado.  E a conversa do povo?  Um tal de suplemento pra cá, de anabolizante pra lá.  Dietas à base de frutas exóticas,  chás revigorantes, potes de mais potes de proteína.   Luíra era mesmo de uma geração saúde, sem álcool, sem maconha, mas com anadrol, deca durabolin, equipoide e halostetin, às vezes  ritalina, verotil, fluoxetina e rivotril.   O importante é a saúde e não consumir drogas, carne vermelha e massa branca.

Drink atleta vegan:
½  litro de água orgânica
½ litro de água com cristais de gengibre
3 gostas de algum anabolizante qualquer
Agite bem e tome enquanto observa a bike importada do coleguinha de pedal