terça-feira, 2 de outubro de 2012

ENQUANTO ISSO NUMA CONFRARIA DE VINHOS...




Francisco Onório, mais conhecido como Chico de Penha era um homem simples.  Morava no triângulo da maconha em Pernambuco.  Enriqueceu da noite para o dia e resolveu morar em João Pessoa com a família. 

Chegando aqui, comprou apartamento de luxo no Altiplano Nobre (nome colocado no bairro para se diferenciar dos pobres que moram no conjunto habitacional que deu nome ao bairro), colocou as duas filhas em escolas que “a gente pagano as bichinha passa tudin e vão se formar”, segundo sua esposa Cleoneide Justa, e comprou uma caminhonete Lando Rover cabine dupla para passar por cima de pobre andando de bicicleta, bater em carro pequeno e atropelar motoqueiros. 

Conheceu muitos chiques quebrados, mas importantes.  Um deles resolveu convidar seu Chico de Penha para aulas de degustação de vinho, numa escola aberta recentemente na capital.  Tomar vinho por aqui é moda, mas você tem que pagar uma fortuna por um vinho que custa uma miséria em qualquer supermercado.  Ser chique por aqui é aparecer.   Seu Chico nunca gostou de vinho.  Quando era adolescente em Cabrobó, tomava uns garrafões de vinho doce quando sobrava dinheiro. Ele gostava mesmo era de cachaça.
No curso oferecido a alpinistas sociais e novos ricos, aprendia-se a degustar os diversos tipos de vinho e conhece-los pelo sabor e safra.  Também aprendia-se a combinar o vinho com diversos pratos.  Dona Cleoneide também se matriculou.   Depois de 15 dias de aulas, lá se foram os dois a um restaurante chique da capital com um grupo de amigos.  Dona Cleó já se afiliou à confraria das amigas do vinho.  Pagou uma fortuna, mas saiu num cantinho de página de um jornal de pouca circulação aqui da capital.  Seu Chico de Penha também se associou a uma confraria.  Aliás, confraria é coisa que não falta entre os famosos e ricos daqui de João Pessoa.   

Numa das noitadas da confraria dos amigos do vinho, foram a um restaurante super chique no qual se vendia uma garrafa de um vulgar tinto seco chileno por 87 reais.  Mas na adega do restaurante tinha vinhos até de 3 mil reais. Aqui não se toma vinho por qualidade ou por degustação, mas por preço.  Era a noite de estreia do casal de novos ricos. O garçom, metido a sommelier, abriu a garrafa e deu a rolha para seu Chico de Penha analisar.  Mas ele não tinha aprendido esta lição.  Olhou para a rolha, olhou para o garçom e deu uma vontade danada dele manda-lo colocar aquela rolha naquele canto...  O rapaz trouxe um pires para colocar a rolha. “É muita viadagem”, pensou seu Chico.  Depois o garçom serviu um gole de degustação a ele.  Agora sim, seu Chico de Penha teria como mostrar àqueles ricos que ele também sabia lidar com os complicados e dispensáveis rituais do vinho.  Ergueu o copo, colocou contra a luz.  Como tinha catarata, seu Chico de Penha não conseguia enxergar direito a cor daquela bebida.  “Acho que esta porra tá boa”, pensou.  Dizia o ritual nas aulas que além de ver a cor do vinho era preciso mexer um pouco para a bebida liberar seu buquê. Seu Chico rodou o copo pegando na haste e neste rodopio o vinho batizou todos na mesa.  O vestido de festa de dona Carminha Dantas ficou manchado.  Os óculos do doutor Juliano Pessoa ficaram pingando sangue.  O bigode do doutor Flávio Siqueira Cavalcanti Bezerra respingava de vinho, bem como a peruca da sua esposa.  A maquiagem pesada de dona Tetê  Costa Andrade Pedrosa (para qualquer nome horroroso, os ricos daqui inventam um apelido carinhoso, como nomes de cachorros) escorria na face à medida em que escorria o vinho.   Chegaram, rapidamente, cerca de 5 garçons para limpar a lambança.  Mas como era o casal novo rico que iria pagar a farra, todos riram e saudaram a atitude de seu Chico de Penha. 
Neste intervalo, o doutor Renato Freitas de Carvalho Sobrinho, chamou o sommelier e pediu que ele servisse vinho barato e cobrasse como se fosse um excelente vinho.  A confraria funciona assim através de propinas e comissões.
Tanto dona Ceoneide quanto seu Chico detestavam vinho.  Gostavam mesmo era de cachaça e de farra com muita comida.  Dona Cleoneide chegou a dar um pequeno piti quando colocou um pedaço de queijo gorgonzola na boca.  “Ei moço, venha aqui agora.  Comi um queijo cheio de mofo.  Que bodega é essa aqui???” reclamava a velha senhora.  A mesa toda ria da excentricidade do casal.   Lá para as tantas, ela já meio alta de tanto vinho barato, tentou se levantar sem sucesso. O doutor Pedro James, distinto e falido cavalheiro, ajudou a pobre mulher a se levantar da cadeira.  Ela levantou-se, sentiu o mundo rodar, e vomitou uma gosma vermelha  com pedacinhos de queijo e pão na tábua de frios importados no centro da mesa.  O vomitório foi geral.  Entre engasgos, dentaduras saltando, lentes de contato rolando, o ronco das pessoas vomitando tomou conta do restaurante inteiro.  Era uma catarse coletiva. Só podia ser um trabalho feito.  Um cheiro de vômito tomou conta do restaurante e outras pessoas começaram também a vomitar aspargos, sopas, batatas noisette, Mcdonalds, enfim um horror.  

No outro dia, numa famosa coluna social, fotos da tragédia foram publicadas por um calunista social com a seguinte frase:  “noite de gala em homenagem ao Halloween faz com que socialites de João Pessoa atuem como zumbis num famoso restaurante da capital.”

Como dizia Elis na canção de Rita Lee: “tá cada vez mais down no high society...”


Drink à base de vinho
1 garrafa de vinho doce
Maçãs picadas
Açúcar a gosto
Tome num copo de pé bem chique para que as pessoas pensem ser uma sangria catalã