segunda-feira, 16 de julho de 2012

ENQUANTO ISSO NUMA ACADEMIA...



José Eleutério Neto sempre reclamou que era muito magrinho e que, por isso, nenhuma menina queria nada com ele. Resolveu entrar para uma academia e fazer musculação. 

Entrou na academia e foi recebido por Tony Boy, um instrutor que foi lhe dando as primeiras dicas. Novo rico, Neto queria se integrar na vida social da capital a todo custo.  Tony Boy o apresentou a uma sacoleira de grifes esportivas onde detonou a grana  do rapaz com bermudas, regatas, tênis, meias, tudo na grife falsificada.   Ele insistiu com o rapaz que naquela academia ninguém repete roupa porque só frequenta a elite da malhação.

Depois o rapaz foi comprar produtos para ganhar massa muscular através de um amigo de Tony Boy que vendia bombas anabolizantes para cavalos e touros.   Neto iria realmente bombar depois daquilo.

Na academia a preocupação de Neto era ser notado.  Mas ninguém falava com ele, tadinho.  As pessoas daquela academia pertenciam a um círculo fechado de atletas. Frequentavam o mesmo point de açaí na tigela, as mesmas lojas de suplementos, o mesmo sushi e a mesma churrascaria-sushi-massas-comida chinesa-teriaki-cup cake. Desprezavam os feios, magros, pobres, sem carro e sem grife. Estavam agora na última moda da capital:  bike.  Chama-se bike, bicicletas acima de 3 mil reais, nas quais atletas pedalam em bando pelas ruas da cidade escoltados pela polícia que mete o pau nos ciclistas pobres da construção civil. Usam roupas de grife, capacetes estilizados e participam de competições internacionais.  Neto teve que comprar uma bike usada por 9 mil reais par seguir o grupo da academia.

As meninas da academia malhavam pouco.  Ficavam na lanchonete discutindo dietas e comendo barrinhas sabor “móvel aglomerado”. A moda entre elas agora era malhar as pernas, estilo jogador de futebol.  Tomam bombas para as coxas, pois os peitos já foram bombados com silicone. A língua mais falada na academia é a fofoca. O esporte predileto é roubar o namorado da outra. Frequentam cursos caríssimos oferecidos pela academia como “bulimia sem culpa”, “anorexia, você ainda vai chegar lá”, “menos massa cerebral e mais glúteos”.  Tem também a moda pilates, mas todas pagam e poucas frequentam, pois aquilo lá é coisa da terceira idade, conforme opinião de Jully Kelly, professora histérica de aeróbica.  Umas optaram por aerobox e muai-thai, porque leram na Capricho que Hanna Montana e Adele tinham “secado” com o esporte. Adoram bike também, porque nos passeios sempre aparece um coroa mal casado que adota uma delas como amante em troca de roupas de grife e viagens clandestinas.  Nenhuma delas quis saber de Neto...

Na ala dos homens, Neto achou que iria ter mais receptividade. Ele estranhou muito os espelhos, mas o professor disse que fazia parte do negócio de malhação, juntamente com as bombas.  Neto queria malhar o peitoral, bíceps, tríceps e costas.  Bunda e pernas não, pois aquilo era coisa de viado. Havia muitos gritos na área de musculação.  Rapazes que levantavam toneladas e urravam no levantamento de peso.  Neto até pensou que estava numa área meio gay, pois muitos ficavam horas se olhando no espelho, alisando seus bíceps, quase se beijando.  Notou que quando um levantava mais peso do que o outro, mesmo sem se olharem, todos estavam se observando e tentavam a todo custo superar o inimigo. Neto viu muitos carinhas olhando pras malas dos outros, mas pensou que aquilo fazia parte do negócio de puxar ferro.  Havia um grupo de lutadores de jiu-jitsu que bateram num dos membros da equipe porque ele esboçou um sorriso para alguém na musculação. Outro grupo de rapazes discutia o efeito de um remédio na diminuição dos testículos e do pênis.  Segundo um deles, não havia problema, pois o que importava era o corpo sarado na praia e quem liga pra pau é viado, pois mulher curte mesmo é um carrão e um cartão de crédito.   Neto estava já desconfiado dos assuntos.  O negócio, segundo ele ouviu de um deles, era comer frango, tomar leitinho e fazer agachamento bem lento...  Curtiam também uma bike.  Ele gostou porque eram da geração saúde: nada de álcool, apenas anabolizantes.  Quase que Neto acabava com sua carreira de malhação, pois resolveu malhar glúteos, além de subir para a sala de aeróbica para fazer jumping. Descobriu que só havia dois rapazes na aeróbica, cujas amigas os apelidaram de Chuck e Noris. Teve que descer correndo e pegar um peso acima do que ele aguentava para reaver sua masculinidade quase corrompida.  Ninguém da ala da musculação falava com Neto...

Após 4 longos meses de musculação acompanhada de esteroides anabolizantes, dieta  forçada de suplementos, comprimidos para força, oxy elite, termogênicos e vitaminas diárias, o corpo de Neto agora estava definido.  Os caras da academia colocaram um apelido nele: Neto Coxinha.  Largo e forte da cintura pra cima e fino e fraco da cintura pra baixo.  Neto perdeu parte dos seus cabelos, estava com olheiras, um braço cresceu mais do que o outro, ficou sem dormir, brochou várias vezes, mas estava satisfeito por ter sido aceito na academia.  A condição básica da aceitação de Neto foi na verdade sua cabine dupla esportiva, seus churrascos para a galera que só entravam com a boca, as rodadas de sanduíches naturais, sucos energéticos e tigelas de açaí que ele teve que bancar para todos, além de gastos com viagens para a prática de bike.   

Conheceu uma gatinha anoréxica com síndrome de pânico e está namorando com ela.  Quase não transam pois ela anda muito fraca e assustada com tudo e ele sem tesão e com um testículo totalmente atrofiado. Neto chegou ao sucesso, enfim. 

Drink malhação:
1/2 copo de guaraná em pó
1/2 copo de suco de clorofila
1 dose de durabolim
2 comprimidos de termogênico
Bata tudo no liquidificador e tome antes do treino

3 comentários:

Luciano Freire disse...

Rsrs não sabia que tu ainda postava! E vejo que os posts sobre a sociedade emergente da PB continuam ácidos!

Abraços

Thg Marques disse...

Kkkkkkkkkkkkkkk E assim caminha a "uma unidade".

Paulo Adolfo disse...

Parabéns! Adorei a sátira, consegue tirar risos e gritos de apoio como "é isso aí, falou e disse!" em um mesmo texto =].