sábado, 24 de setembro de 2011

ENQUANTO ISSO NUM DIA SEM CARRO...



No dia sem carro, resolvi aderir à campanha. Detalhe: só eu! Nunca vi tanto carro na rua como na quinta 22 de setembro. Saí pra aula na UFPB às 7, pois a aula seria às 8h. Andei até o ponto de ônibus mais próximo e lá fiquei por 5 minutos, 10, 15, 20... Por um momento pensei em voltar e pegar o carango e mandar o dia sem carro pra puta que pariu. Mas após 35 minutos vem um ônibus. No ponto não havia nenhuma indicação das rotas. Apelei pra sorte. Entrei e bati com a cabeça numa das barras, pois o motorista arrancou sem pena. Uma senhora em pé caiu no colo de um rapaz, amassando a maquete de arquitetura que ele tinha levado três semanas pra montar. Na faixa exclusiva pra ônibus, muitos carros e motos invadindo a pista, entre buzinas e insultos. Notei que o ônibus tomou a direção errada (eu ia pro CCHLA e acabei no HU) e pedi parada rapidinho. O motorista puto da vida freiou de vez o ônibus, me arremessando quase no parabrisa. Desci no lugar errado, andei quilômetros e cheguei atrasado na aula. Voltei desolado com saudades do meu carrinho.

Intrigado com a falta de adesão, fui pesquisar os fatos.
O senhor Marcos Donato tem uma caminhonete gigantesca. Seu filho Dóca tem uma maior ainda. A esposa dele, dona Nilda, anda com um carrão importado e Júlia Mabel, a caçula, tem uma troller. Desde novo, seu Marcos Donato, homem rude das bandas do curimataú, queria ter um carro grande. Dizem as más línguas que ele foi vítima de chacota na sua juventude. Foi a um bordel da região e uma das meninas espalhou que a piroca dele nem cócegas fazia. O apelido Marcos Pimbinha ficou pra sempre na sua memória. Após dar um golpe traficando maconha em cargas de agave, ficou rico e se mandou pra capital. Aqui chegando, já casado com dona Nilda, comprou um baita apartamento e um caminhonete cabine dupla de última geração. Carro enorme. Freud explica: pau pequeno, carro grande. No carrão, seu Marcos Donato (ex marcos Pimbinha) se sentia um rei. Passava por cima de ciclistas, batia em motoqueiros, fechava carros pequenos, cuspia em mulheres motoristas. No dia sem carro, seu Marcos matou um gato e atropelou um ciclista.

Dóca Donato dirige velozmente sua caminhonete importada. Geralmente anda só naquele carro gigantesco. Às vezes anda com alguma loura de chapinha. Nos finais de semana, ele para seu carrão num posto de gasolina, abre as portas e solta música sertaneja e forró de plástico para todos ouvirem. Gosta de whisky falsificado com energético e sempre que pode, atropela alguém na madrugada quando avança nos sinais vermelhos super bêbado. No dia sem carro, ele subiu numa calçada pra cortar um ônibus e derrubou um poste.

Dona Nilda ainda não aprendeu a dirigir direito. Seus reflexos nunca foram bons e agora, com o mal de Parkinson, andam bem piores. Mas ela insiste em dirigir. Todos os dias, pega seu mega carrão e vai à cabeleireira. Geralmente estaciona na calçada, e as crianças de uma escola vizinha se arriscam tendo que andar no asfalto porque o carrão toma toda a calçada. Dona Nilda odeia pedestres. Acha que o povo é burro e andar de ônibus ou à pé é coisa de pobre. Foi visitar Paris e voltou enfezada, dizendo que os franceses são pobres porque andam muito de metrô. Odiou Amsterdã, pois se lembrou dos tempos de pobre no curimataú ao ver umas moças andando de bicicleta. Lembrou-se que ela ia pro grupo escolar na garupa da bicicleta de seu primo e no inverno chegava na escola toda respingada de lama. No dia sem carro, passou por uma poça em alta velocidade e sujou uma freira que passava no local.

Júlia Mabel adora sua troller. É uma moça feia, com as pernas cheias de marcas de antigas perebas. Escraviza duas amigas que andam com ela por causa do carro. Já tentou por várias vezes seduzir o menino mais bonito da sala, mas ele tem carro também. Se contentou em ficar com um magricelo que dirige a troller em troca de favores sexuais. Apesar de morar a duas quadras da escola, Júlia Mabel vai de carro pra impressionar as colegas. Comprou sua carteira de habilitação no curimataú e já atropelou duas velhinhas que saíam da missa e um pastor que pregava no busto de Tamandaré. No dia sem carro, conseguiu a proeza de invadir a faixa exclusiva de ônibus, provocando um engarrafamento de 2 km e um engavetamento com 6 veículos e uma ambulância do SAMU.

Drink para um dia sem carro:

1 copo de conhaque
1 lata de energizante
3 lexotan (pra enfrentar os abusos de andar de ônibus numa cidade que não dá a mínima pro transporte público)

2 comentários:

Flávia Pires disse...

Compartilho sua indignacao! JP 'e uma cidade onde andar a pe 'e ser pobre... as campanhas de educacao pela faixa de pedestre pararam e parece que os motoristas fizeram questao de esquecer bem rapidinho que TEM q parar na faixa sempre que houver um pedestre querendo atravessar.

carlosbarros666 disse...

Amei essa sua vida crônica!! Parabéns, Adriano. Seus textos continuam maravilhosos.