quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

ENQUANTO ISSO NO VERÃO DE 2010...


A capital está lotada de turistas. Mesmo que não haja hotéis suficientes e nem a mínima infraestrutura de bares e restaurantes... detalhes...


Sempre tem gente que nos visita neste mês de janeiro. Aí começa o sofrimento: ter que levar nas praias de manhã, à tarde na Estação Ciência e ao entardecer, ai, ao por do sol do Jacaré. É muita provação.


Fiz isto com um casal de amigos. De manhã fomos inventar de ir à praia. Bessa: lotada; Poço: inchada; Camboinha: tumultuada. Encontramos um bar na beira da praia em Camboinha, já com a água do mar batendo nas mesas, apesar da maré baixa. Havia um certo desespero num grupo que se estapeava pra conseguir uma mesa. O filhinho do casal com um cachorro poodle latindo desesperadamente corria de um lado pra outro de sandálias havaianas espalhando areia nos ensopados de ostra (sem ostra) pelas mesas. Os garçons, coitados, aturdidos com tantos pedidos colocaram cachaça para um senhor do AA e refrigerante para uma senhora diabética. Já que pagaram o 13º salário, os donos dos bares não contratam empregados no verão. Na orla, as pessoas não podem transitar porque as mesas invadem a areia até o mar. Não podem se banhar porque os playboys estão apostando corrida de jet sky. A famosa Areia Vermelha fica mais poluída de que cemitério em dia de finados, com o som estridente de barcos, latas de cerveja boiando ao lado de copos descartáveis, merda de criança e resto de comida de adultos.


À tarde, logo cedo, fomos à estação Ciência de Arte e Cultura. Entramos para ver o quadro de Flávio Tavares, mas não deu. Havia uma fila de turistas ensandecidos para tirar uma foto diante do quadro e muitos deles nem ao menos sabiam de que se tratava o mesmo. Como todo museu moderno não havia nada pra ver. Acompanhamos uma multidão agitada que subia pelos elevadores e escadas. Pensamos: é uma exposição interessante. Não era. Todos corriam tresloucados para tirar uma foto da parte superior da estação. Era melhor rebatizar de Mirante, Ciência e Cultura... Maldita hora em que inventaram estas câmeras digitais e este famigerado Orkut. Milhões de caras e bocas e fotos e mais fotos. Uma mãe perdeu seu filho na multidão e pediu outra criança emprestada para pousar no lugar do filho perdido. Um rapaz aproveitou para tirar uma foto da senhora e mostrar a sogra o quanto ela era desprezível na vida dele. Um fotógrafo fazia montagens com os turistas. Tirava um foto ao lado do prédio como se o turista estivesse segurando uma taça, aos moldes das fotos do Padin Ciço no Juazeiro com a mão na cabeça dos fiéis.


Lá pelas 16 horas, fomos à praia do jacaré assistir ao famoso por do sol. Minha azia bateu forte e meu usual mau humor se espraiou de vez. Uma barulheira infernal nos bares hiper lotados deixava o sol e o rio como elementos menores. Saindo às 4 da manhã da nascente do rio Amazonas, depois de longa jornada, eis que surge uma imagem de uma índia inca no horizonte. Engano meu: era Jurandir do Sax. Numa canoa, vestindo uma tradicional roupa cerimonial e um cachecol de pele de lhama laranja-cheguei-neon, o sax em punho, se ouve um ruído ao longe, o que me pareceu ser o Bolero de Ravel misturado com gritos de clientes nos bares, pessoas berrando por um lugar ao (por do) sol para fotografarem aquela cena dantesca. De longe surge outra canoa com outro saxista executando o mesmo bolero. Como numa corrida de remo, os canoeiros tentam chegar o mais rápido possível ao cais com os artistas tocando o bolero que incrivelmente é acompanhado de uma orquestra imaginária nas caixas de som dos bares. Sinto o confronto se aproximar. Com os saxes em punho os dois artistas se engalfinham entre palavrões e socos. A galera se agita e se transforma numa arena romana naquele coliseu aquático. Com um golpe certeiro, Jurandir do sax cai na água e eu posso ouvir o bolero sendo executado ao som de bolhinhas no fundo do rio. A massa de turistas aplaude. O saxofonista vencedor chega ao cais e sobe imponente a rampa ao som daquela música chatíssima que a Globo colocava quando Airton Senna ganhava uma corrida. O sol se põe, sem que ninguém veja. A fim de conter os ânimos, os bares colocam a música “Ave Maria”. Como a maioria já está bêbada eu vejo alguém tentando dançar coladinho enquanto Elba Ramalho entoa sua Ave Maria no volume máximo.


Eu mereço...


Um drink para o verão no Jacaré:

1 copo de cachaça

1 pitada de antiácido efervecente

1 rivotril

ENQUANTO ISSO NA MARCHA PRA JESUS


A Marcha para Jesus foi um sucesso e tanto. Antes ela começava lá na Epitácio, mas agora o percurso é bem curtinho. Falta fé ou resistência física aos fiéis?


Os organizadores resolveram colocar uma campanha de doação de sangue desta vez, talvez inspirados na paixão de cristo. Quando a festa estava no auge, com louvores, dancinhas comportadas, cerveja sem álcool, litros e mais litros de água mineral, rolou um estresse tremendo. É que de repente um grupo de gays e drags apareceram na orla em plena marcha a saltitar, gritar e distribuir camisinhas.

Vindos do interior, as bibas erraram a data. Como a parada gay e a marcha para Jesus acontecem em finais de semana colados, eles pensavam estar na parada gay quando a manifestação era a marcha pra Jesus.


Ao verem uma biba vestida de vampira pop, alguns organizadores até pensaram se tratar de um golpe de marketing para a campanha de doação de sangue. Ao verem uns rapazes de jaleco, algumas bibas até pensaram estar diante de go-go boys prontos para mostrar as sunguinhas por baixo do jaleco. Mas até então todos dançaram livremente. Eis que um pastor chega perto de um dos gays e pergunta se ele aceita Jesus. “Menino, eu dava um chega pra lá naquela Madonna e rasgava Jesus todinho!” responde o entendido. O pastor acha estranho, mas pensa se tratar de um destes católicos moderninhos, já que ele falou em Madonna, a Nossa Senhora, mas ainda não sacou este lance de rasgar Jesus.


Lá pras tantas, as bibas acham estranho não rolar nenhuma música eletrônica, não ter nenhum carro de som com neon, além dos rapazes presentes estarem tão certinhos. Depois de muita cachaça, as drags partem para o ataque frontal. Tentam beijar um pastor cinquentão que levantava as mãos para o céu em louvor. Uma drag pensou que ele estava cantando “It´s raining man” e grita “aleluia” já partindo para um beijo de língua mortal. Quando os fiéis enrustidos olham aquela cena, gritam “uh-ruh!” e se agarram com as bibas numa cena prá lá de Sodoma e Gomorra. Alguns pastores mais tradicionais acreditaram se tratar de uma encenação sobre 2012, o final dos tempos.


Um grupo de senhoras evangélicas se abraçaram com duas travestis imaginando que finalmente o movimento evangélico seria capaz de salvar aquelas almas perdidas. Neste encontro, uma das travecas encontra um dos maridos destas senhoras e o reconhece gritando: “Trajaninho, vem chupar sua bubuca, bofe!”, explicando à senhora que o honrado senhor Trajano, nas horas vagas se veste de bebê e fica chupando a bubuquinha dela, pra sair leitinho. O senhor chega a ensaiar um enfarto, mas sua esposa já adere ao movimento xuxuquinha, dizendo realizar finalmente o sonho de chupar um bubu que funcione.

No bucho de Tamandaré, a festa termina com balões e camisinhas infladas, os enfermeiros do da coleta de sangue arrastados pra uma boate gay e algumas bibas se convertendo enfim aos bons e retos caminhos de Jesus, sem Madonna!