segunda-feira, 3 de novembro de 2008

ENQUANTO ISSO NUM HALLOWEEN

A cultura brasileira é muito americana mesmo. Tem grupos de torcida organizados para Barak Obama entre os intelectuais e para John McCain entre os direitistas do DEM(O). O que eles têm em comum é que todos engordam devorando Mac lanche feliz com seus filhos obesos nos finais de semana de shopping.

Nesta miscelânea cultural, houve um encontro inusitado no dia 31 de outubro em pleno centro da cidade. Seguinte: havia a inauguração de uma igreja evangélica chamada Comunidade Evangélica Vou Guiar os Servos do Senhor, carinhosamente apelidada de Vou-gui. No mesmo dia, uma boate GLS de nome parecido comemorava o Halloween com shows de drags vampiras e performances variadas. Vindos do interior num ônibus fretado, uma comunidade evangélica se perde nas ruas do centro da capital. O motorista, um homem dos seus sessenta anos, desce com uma bíblia na mão e pergunta a um flanelinha onde é a Vou-gui. De cara, o garoto aponta para a boate, mas avisa que só vai abrir mais tarde. Sentados na praça do bispo, os evangélicos esperam até às 11 horas quando a boate abre suas portas. Algumas evangélicas retocam seus longos cabelos. Os rapazes, a maioria da excursão, penteiam seus cabelos e seguram a bíblia com fé.

Os porteiros da boate e os seguranças não estranham a comunidade que agora entrava na boate, pois tipos exóticos nunca faltaram por lá. E como era Halloween, nada mais normal de longos cabelos, fantasias, caras e bocas. Entraram. O pastor estranhou um pouco aquele ambiente, mas as coisas da capital são sempre diferentes mesmo. Tudo em nome do Senhor. Mas já de cara os evangélicos curtiram o lugar: um palco, luzes, som... Nada mais parecido do que um show gospel! Os hinos eram em inglês com uma batida diferente. A turma jovem adorou. O movimento gospel era mesmo bom: trazia as novas tendências da música mundana para a vida sagrada das hostes angelicais. Acostumados com shows do axé-gospel de Lázaro, com os gritos de louvor de Elaine de Jesus, com os rebolados sagrados de um cantor da capital, aquele palco já trazia o clima de mais um espetáculo da fé.

Por volta da meia noite, os frequentadores assíduos começam a chegar. Bibas emplumadas, sapinhas arrochadas, gente com vassoura (um pau é sempre bem vindo nestas ocasiões), bruxas com chapéus rosa-choque, enrustidos com capas de vampiros, curiosos fazendo carão. A tropa invadiu a boate e se misturava, pouco a pouco, com os evangélicos. Todos riam, pois a festa à fantasia tinha uma dupla interpretação: de um lado, as bibas se impressionaram com o público novo, acreditando que o movimento gay estava cada dia mais forte, arrasando; do outro, os evangélicos se deliciavam com as expressões de fé talvez próprias das pessoas da capital, talvez uma crítica feroz ao diabo que se traveste de bruxa, de feiticeiro, de macumbeiro. Devia ser uma peça gospel.

De cara, o motorista foi confundido com Madame Mim e levou uma cantada de um menino fantasiado de Bambi. Uma senhora muito recatada sentada num cantinho foi abordada por uma bibinha que, alisando os longos cabelos dela, perguntava quem deu aquela escova tão perfeita. Uma sapinha tentou seduzir duas evangélicas prometendo a elas o paraíso na estrada de Cabedelo. A mulher do pastor rodopiava feito uma carrapeta no dancing, numa performance à la Pomba Gira, aplaudida por um grupo de drags que na visão gospel deveriam retratar as bestas do apocalipse. Algumas senhoras ficaram atônitas com tantos beijos na boca, coisa que os maridos já haviam esquecido há tempos. Mas aquilo deveria ser a manifestação das línguas de fogo de pentecostes.

Eis que se inicia o show das drags-vampiras. A primeira delas, vestida numa mistura de Drácula com Mickey Mouse, anunciou a presença de vários novatos na área. Gritava: são os eleitos, são a nossa salvação! Os evangélicos se sentiram muito prestigiados com tamanha honraria. Os eleitos do Senhor para a salvação das almas. As drags deveriam ser a representação do mal que paira sobre a terra e logo depois, acreditavam eles, os guardiões de Gedeão iriam expulsar todos os demônios do palco. Seduzido por um carinha que ainda estava no armário, um jovem evangélico tomou todas e subiu ao palco quando o DJ rolou a música I will survive. Foi a revelação da noite. As bibas amaram o strip tease do boy. Os evangélicos finalmente tiveram seu guardião expulsando os demônios e se despindo de suas roupas numa demonstração de completo desapego material. Tudo ia bem, quando uma Barbie (gay com corpo de Tarzan, voz de Jane e cérebro de Chita) subiu no palco e lascou um beijo de língua no evangélico-stripper. Comoção geral. A música parou. Agora a verdade iria ser revelada para ambos os lados. Os evangélicos gritavam: aleluia, aleluia, Judas não triunfará! O povo GLS berrava: arrasa pintosa, é rosa!

Mas tudo correu bem no final. Às cinco da manhã, os evangélicos encontraram o motorista se despedindo da bibinha na lateral do ônibus. Entraram em paz e voltaram para o interior pensando nos momentos de louvor tão diferentes vivenciados na capital. A conversão foi geral. Saldo: evangélicos de purpurina; gays, lésbicas e simpatizantes livres das maldições...

4 comentários:

Saulo Oliveira disse...

Gente, virei seu fã, desde que Mariana ( amiga sua se não me engano... Mariana professora de Direito ) me indicou o seu blog eu sempre passo por aqui quando tem alguma atualização. E o que foi esse post ? morri de rir.

Você escreve muito³ bem.



P.S: Em pensar que eu ia para o halloween da VOGUE e não fui, kkkkkkkkkkk

EX GUEI disse...

É pra pensar? (rs)... Parece que entre mortos (Evangélicos) e feridos (gueis)salvaram-se todos. Gostei de todos os tipos: o motorista bundão que pegou a bibinha na lateral do ônibus; a drag tipo mickey mouse; e, parece, o arrazô da biba neopentecostal: menino, Gloria Gaynor à la pomba-gira... Uma experiência nova: evangélicos batizados, gueis purificados... Todos na paz!

Joao Candido Tessar

Henry Pôncio Cruz de Oliveira. disse...

Eu morri de rir. A definição de Barbie que vc adotou merece uma investigação científica com direito a artigo na perspectiva das reperesentações sociais - kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

Adorei.

mayclio disse...

Halloween divertidíssimo, Adriano. Evangélicos louvando na Vogue, kkkk. Você é realmente surpreendente!