domingo, 12 de outubro de 2008

ENQUANTO ISSO NUM RESTAURANTE NATURAL...

Fui a um restaurante natural a convite de uma amiga antropóloga e um amigo sociólogo. Claro que a coisa não poderia dar certo...

Entrei no restaurante e fui me servir. Antes, lavar as mãos como aprendi na tenra infância. Havia uma ante-sala de espera para os banheiros e ali um quadro de avisos com cartazes e coisas afins. Já fiquei impressionado com aquilo. Curso de Limpeza da Aura: limpe sua aura com o mestre Ecan em sessões de drenagem cosmotrônica. Realinhamento dos Chacras e Renovação do DNA: alinhe seus sete chacras a partir do rebalançamento das partículas subatômicas do DNA com a mestra Haia. Curso de Psicobiônica: esqueça tudo que a Ciência falou sobre a mente e o cérebro. Com o professor Satthya Barba, você poderá se conectar com a décima dimensão e entrar em contato com os seres de Capela. Fiz os cálculos dos “investimentos”: 1480 reais. A esta altura, eu já estava me sentindo na nave-mãe ao lado de Elba Ramalho que se conectou com os seres de luz após ser chipada em Conceição do Piancó, sertão-brabo da Paraíba, depois de passar três horas no sol quente recitando o mantra AUN.

Desolado, fui almoçar, enfim. Muita coisa verde. Muito mato. Muitos vegetais olhando pra mim. Algumas comidas estranhas, provavelmente oriundas de Plutão, que já não é mais planeta, mas ainda dá um caldo. Desconfiei que não havia carne, mas fiquei calado em consideração aos meus dois amigos. Mas depois descobri a fonte de proteína animal. A-ha! Enfim algo concreto, gostoso, palpável, forte, substancial, energético. Quando fui me servir de uma galinha à cabidela, vi que havia bem acima do prato um cartaz que dizia: Qualquer tipo de carne faz mal à saúde. Este “ser fabricado” que você está vendo aí abaixo pode levá-lo à morte. Somos contra este tipo de alimento. Achei que era uma piada e quando fui pesar o prato, perguntei a responsável se tratava-se realmente de uma brincadeira. Ela me olhou seriamente e me respondeu que não, ao mesmo tempo que me reprovava com um olhar fulminante por eu ter me servido da galinha, aquele “ser fabricado”.Sentei-me e comi o prato de mato com uma deliciosa galinha à cabidela que me salvou o resto da tarde.

Pude classificar os clientes daquele restaurante natural, classificação esta que pode ser usada para qualquer restaurante deste tipo:

1. Fantasmas: são clientes que já morreram, mas ainda insistem em se alimentar de folhas e comidas estranhas. São magros, pálidos, recurvados, silenciosos, mastigam mais de 50 vezes uma folha de alface, olhos esbugalhados, pele encerada, roupas indianas.

2. Pé-na-cova: são clientes que estão para morrer a qualquer momento, e que, por orientação médica ou espiritual, ainda insistem em se alimentar de folhas e comidas estranhas. São magros, pálidos, recurvados, silenciosos, mastigam mais de 50 vezes uma folha de alface, olhos esbugalhados, pele encerada, roupas indianas, vivem fazendo yoga, cursos de saúde alternativa, meditação, biodança, arte-terapia e coisas que a gente faz quando desiste da vida.

3. O-que-é-que-eu-estou-fazendo-aqui?: são clientes que estão vivos, mas insistem em se alimentar de folhas e comidas estranhas. Curiosos, politizados, alérgicos, ulcerosos ou com gastrite, professores universitários da área de humanas, jovens engajados em alguma ONG, feministas cansadas, gays alternativos e gente com algum tipo de apatia.

Comi, paguei e fiquei pensando numa bela torta de chocolate com morango cheio de agrotóxico.

Drink naturebis:

Suco de limão

Suco de kiwi

Hortelã

Clorofila

Misture tudo, tome e vire um vegetal!


2 comentários:

Mariana disse...

KKKKKK... Acho até que sei qual é o restaurante e logo me vi na classificação 3. As definições deste blog são todas geniais!

en¬eio disse...

Isso foi no restaurante Oca? ahahaha