domingo, 12 de outubro de 2008

ENQUANTO ISSO NA VOTA ÀS AULAS ou ENQUANTO ISSO NA FINAL DAS AULAS...

Leitores e leitoras (aprendi isto num congresso que tinha um monte de gente chata da universidade):

Depois de participar de um congresso de ex-ufólogos na Chapada Diamantina, cujo objetivo era desmascarar os ufólogos que se tornaram ex-ufólogos, voltei para terminar o semestre letivo da UFPB.

Uma Universidade que passa 101 dias em greve e o povo do país nem percebe não pode funcionar. E eu, como professor consciente, engajado e politicamente correto fui a todas as assembléias convocadas pela força sindical reformadora das estruturas repressoras deste governo que aí está. Assim que eu entrei no Centro de Vivência, local escolhido para a intentona gloriosa, havia um revendedor da Oi e outro da Claro, talvez esperando que os grevistas comprassem celulares com o aumento gigantesco. Também havia uma pequena loja de biquínis, sungas e maiôs para os grevistas que quisessem panfletar nas praias. Lá atrás, bem discreto, um camelô vendia pijamas de bolinhas e camisolas de renda para os grevistas aposentados.

Aliás, a Sociologia do Trabalho está muito defasada em seus conceitos. Não está dando conta de uma nova categoria trabalhista (?) que acaba de ser criada: o trabalhador grevista ativista aposentado. Seguinte: o cara se aposenta (às vezes bem novo), compra uma TV de 42 polegadas e passa a tarde inteira assistindo sessão da tarde, vale a pena ver de novo e shoptime. Quando começa o movimento por melhores condições de ensino (vamos resumir isto em aumento de salário, né?), o cidadão tira seu pijama, veste uma calça jeans e uma camiseta pólo e vai para as assembléias votar pela greve. Nós, da ativa, entramos em greve, corremos para a praia e eles voltam a assistir os melhores momentos de shoptime. Dizem as más línguas que a professora representante dos aposentados no sindicato dos docentes da UFPB estava passando as férias na Europa durante a greve, mas acompanhou todo o movimento pela internet. Que legal! Mais uma categoria exótica: aposentado de férias e em greve!!!

Depois de uma hora e meia de atraso, a assembléia começava. De início era feita uma análise de conjuntura altamente desconjunturada, cujo objetivo era meter o pau no governo Lula. Todos ressentidos porque elegeram o salvador do proletariado e ele preferiu a Kelly Key: “to nem aí, to nem aí, pode ficar no seu mundinho que eu não to nem aí”. Então um professor sonoplasta põe um CD com palmas para a análise. Alguns choram. Alguns atendem o celular. Outros cochilam. Muitos conchavam. As inscrições para a análise da análise de conjuntura começam. Geralmente 15 falas. O professor sonoplasta coloca o CD com as falas dos 15 professores previamente gravadas e remixadas. 10 professores analisam a análise das análises de conjuntura da ANDES, descendo a lenha no governo Lula, no FMI, na globalização, no neoliberalismo, no trânsito, na Rede Globo, na Falha de São Paulo, na sogra e no preço da gasolina. 2 professores exaltam Cuba, Fidel, Che, Violeta Parra, Florbela Espanca, JK, o Sendero Luminoso e a Al Qaeda. Os outros falam mal do sindicato. Pede-se calma para a votação. 4 professores pedem uma questão de ordem. Instala-se a desordem. A mesa diretora propõe a greve geral, imediata e irrestrita. 69 professores aposentados votam pela greve. 33 ativistas despolitizados e anarquistas votam pela greve. 5 professores alienados, direitistas, conservadores e ordinários votam contra a greve (6, me incluindo). 2805 professores ausentes da assembléia acessam a internet de casa e, como bons democratas virtuais, entram em greve na mesma hora.

Campus vazio. Debandada geral de professores e alunos. O comando de greve resiste num bunker contra armas químicas e ataques suicidas. A elite não pára: a pós-graduação, os programas de bolsistas e o Curso de História ministrado para o MST. Tá tudo dominado: até o MST aqui é elite e fura-greve! 101 dias parados e recebendo salário integral. Que farra! A matemática do caos se instala: em 365 dias, 200 dias letivos, 101 dias de greve, mais ou menos 100 dias de aula; cerca de 390 dias de salário (12 meses + 13°). Eu nunca pensei que eu algum dia pudesse ser tão privilegiado.

Após imensa batalha, a ANDES (Ai de Nós Docentes Enfastiados da Sala de aula) consegue um feito inédito: o governo nos dá as costas e edita um pacote indecente para os indecentes docentes. Voltamos no mês de janeiro para concluir algo que deveria ter sido concluído em junho de 2005. Como eu iria pra Chapada, resolvi pedir a solidariedade aos meus colegas aposentados: que um deles ministrasse minhas aulas no mês de janeiro, uma vez que não trabalham mas votaram para que eu não trabalhasse. Nenhum atendeu ao meu pedido. Tô puto! E não contentes com 101 dias parados, vamos ter um mês de férias entre fevereiro e março, já que ninguém é de ferro, concordam?

Os alunos voltaram desmotivados e loucos por notas. Os professores voltaram desmotivados e loucos pra dar notas. Os funcionários quase todos desmotivados, são dignos de nota. Até a Praça da Alegria, local de esfuziantes debates acadêmicos do CCHLA ficou mais triste. É que uma antiga e tradicional banca do PSTU, PCO e PSOL que vendia botons e camisetas com o slogan “Fora FMI” quebrou geral depois que Lula pagou antecipadamente a dívida com o FMI. 5718 botons e 910 camisetas estão agora estocadas nos porões da ditadura do proletariado.

E assim se passaram 50 anos da gloriosa UFPB. Parabéns!

Coquetel veneno anti-monotonia:

Depôs de ler três análises de conjuntura feitas durante a greve, recomenda-se:

1 copo de cana de cabeça

1 pitada de pimenta vermelha

1 colher de azeite de dendê

1 pitada de soda cáustica

Misture tudo, tome e vá aplaudir cantor de shopping em dia de domingo.

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