domingo, 12 de outubro de 2008

ENQUANTO ISSO NO SHOW DE ADRIANA CALCANHOTTO...

Meus amigos resolveram me tirar de casa para assistir o show de Adriana Calcanhotto e um grupo chamado Nós 4. Sair por Adriana Calcanhotto deveria valer a pena...

Chegamos numa casa de shows no Jacaré, Cabedelo. Infra perfeita: um terreno semi-baldio com cara de parque de vaquejada, todo murado. Um elevado de concreto e cimento batido chamado de camarote. Nos fundos da estrutura, um palco. Na frente deste, uma cerca isolando os VIPS dos mortais.

Começa o show. Adriana canta. Procuro um lugar pra vê-la melhor. Foi então que vi que estava no lugar errado, na hora errada. As pessoas não paravam de circular durante o show. Andavam desesperadamente de um lado para o outro à procura de ninguém. Adriana era um detalhe. Mocinhas de cabelos chapados e saltos altíssimos falando alto e trupicando no chão de areia e metralha. Mocinhos falando desesperadamente nos seus celulares talvez com ninguém. Todos andavam e falavam. Uns perguntavam que era aquela moça cantando no palco. Seria alguém do Calypso? Seria uma diva do axé? E eu parado, empurrado, pisado.

Notei que eles pensavam que estavam num shopping. Adriana virou cantora de shopping: cantando pra ninguém, obscurecida e inútil. Pararam por uns minutos quando ela cantou uma de suas músicas que virou trilha de novela da Globo.

Lá pelo fim da apresentação, houve um tumulto enorme. Começou a chover e as meninas de chapinha corriam desabaladamente em busca de um abrigo. Gritavam loucas com as mãos nos cabelos. Os seguranças tiveram que intervir quando elas tentaram invadir o banheiro masculino, os camarotes, o palco e a tenda de som e iluminação. As VIPS, sem poder sair do cercado VIP, pegaram cadeiras VIPS de plástico e colocaram sobre os cabelos chapados.

Depois de alguns momentos de intenso pânico, podia-se ver entre os cacos de metralha, pedaços de saltos misturados com mechas de megahair, lentes de contato coloridas, destroços de celulares e chaveiros da Hello Kitty. Cheguei a ver uma prótese de silicone e uma bolsa Louis Vuitton made in 25 de março pisoteada.

Adriana Calcanhotto se foi. Nada ficou no lugar!

ENQUANTO ISSO NO MUNDO ANTI-GAY...

ABAIXO A OMOSSEXUALIDADE!

Vamos então à polêmicas dos pastores da VINACC – Visão Nacional dos Ativistas Contra o Cu, Projeto Jonas – Religiosos que adoram ser comidos por indivíduos tamanho baleia e um segmento católico EDMEGM – É dos Meninos que Eles Gostam Mais que estão lutando desesperadamente contra os gays, lésbicas, simpatizantes, travecos, travados, tarados, taludos, surubeiros e outras siglas que não me vêm à cabeça agora. Outdoors, passeatas, cartas, manifestos e manifestações.

Eu tenho a solução para tudo isso: vamos acabar com o conceito de homossexualidade e criar o conceito de omossexualidade. Isso. A omossexualidade é um mal que deve ser combatido por toda raça humana. Explico-me. Omossexual é aquele sujeito que adora transar com caixa de sabão em pó, fazer suruba numa piscina de espuma de sabão em pó, andar sempre limpinho com roupas lavadas com sabão em pó.

A questão é que no movimento anti-gay evangélico há muitos omossexuais. Aqueles pastores em dia de culto de paletós engomadinhos, de cabelo igualmente engomadinho são todos omossexuais. Colocam suas esposas e domésticas-de-cama para lavarem seus trajes domingueiros com sabão em pó. O sabão em pó, ao entrar em contato com o pênis faz com que este vibre numa freqüência muito alta e os caras saem transando nos bastidores com as fiéis, com os fiéis e também com alguns infiéis que traem os maridos e esposas quando vão pro culto orar. Entre os católicos, o contato com o sabão em pó transforma os padres e fervorosos católicos em omossexuais também. Nestes, graças aos efeitos alucinógenos das músicas do Padre Marcelo Rossi, o contato da pele com o sabão em pó leva padres a exercerem ao pé-da-letra a máxima “deixai vir a mim as criancinhas”. Há casos relatados no site da CIA em que freiras católicas, depois de usar o sabão em pó, passaram a também querer produzir o dito cujo, fazendo sabão até revirar os olhos. A omossexualidade é um absurdo mesmo. Há casos no site do FBI de homens cristãos de boa moral casados e omossexuais. Depois que suas amantíssimas esposas passaram a usar o sabão em pó, eles se acostumaram a sentar na boneca, a torar a rosca, a dar o anel, talvez numa tentatica vã de manter sempre livre e limpo um local tão absurdamente sujo e anti-natural quanto é o cu.

Os gays e sapatões também não deveriam brigar com os religiosos por isto. Tem muito gay omossexual. Se você perguntar a maioria dos gays a sua preferência, 90% vão se dizer ativos, o que significa que também eles foram contaminados pela mania de limpeza causada pelo sabão em pó. As sapinhas omossexuais são mais leves, uma vez que sua prática já envolve as técnicas da saboaria. Portanto padres, arcebispos, pastores, diáconos, povinho da moral da família e dos bons costumes, esqueçam os homossexuais e lutem contra os omossexuais, por uma sociedade livre desta mania de limpeza que nos arrasta para a sujeira do preconceito!

ENQUANTO ISSO NOUTRO DIA INTERNACIONAL DA MULHER

Cheguei pra dar minhas aulinhas na UFPB no dia 8 de março. Tudo tranqüilo, aulas preparadas, aquela coisa de sempre. Passando pela Praça da Alegria do CCHLA, eis que me deparo com um grupo enorme de mulheres, e também alguns homens que por ali circulavam, num ritual tribal de homenagem à Deusa Gaia.

Por entre um banco de feira que vendia saias indianas e outro que vendia saias feitas por uma comunidade de mulheres sem dedos do interior do Tocatins, um grupo de mulheres vestidas de saias indianas dançavam uma dança circular que ativava os hormônios femininos e conectava as dançantes à Deusa Gaia. À princípio eu pensei que era uma daquelas velhas e chatas homenagens à Lia de Itamaracá que todo pernambucano entoa a cada turista que chega por lá. Na verdade parecia uma ciranda, com a diferença que as mulheres dançavam com os olhos meio abuticados olhando para um ponto no centro da roda, que depois descobri ser um falo. Todas usavam logos cabelos e uns enfeites feitos de penas e sementes também vendidas por um índio que ouvia um ipod e não estava nem aí pras mulheres.

Um grupo de mulheres evangélicas discordando da homenagem à Deusa Gaia, começou a entoar um mantra de exorcismo, com uma pastora lendo um salmo em voz alta, num surto histérico. As pastoras de Davi, tentaram invadir o círculo e começaram a jogar sal grosso nas mulheres de Gaia. Um grupo de mulheres afrobrasileiras, ao perceberem que se tratava de sal grosso, se manifestou baixando várias entidades que iam desde um mãe de santo epilética até uma prostituta convertida. As mulheres militantes de Jeová, um grupo carismático, entoaram um grito de guerra e começaram a esbofetear tanto as mulheres de Gaia, quanto qualquer mulher que passasse por perto. Uma militante dos Direitos Humanos levou uma cabada de vassoura de uma funcionária da limpeza ao tentar defender o direito de bater e apanhar livremente e igualitariamente. Uma cantora lírica quase morreu eletrocutada quando uma militante da Deusa Gaia, tentando acabar com o conflito, derramou um balde com o elemento água, fazendo com que saísse do fio do microfone da cantora o elemento fogo que, em contato com o elemento ar quase colocou a cantora a sete palmos do elemento terra. Tudo foi resolvido quando uma xamã siberiana radicada em Bayeux soprou um apito mágico, fazendo com que todos os gatos famintos do CCHLA e redondezas atacassem as mulhers no Dia Internacional da Mulher. [continua]

contunuação

À noite, na face nobre da cidade, a Sociedade das Mulheres Amigas do Porre de Vinho – AMAPV - se reuniu com uma renomada colunista social da província para comemorar o 8 de março. O evento contaria com a fina flor da society pessoense. As lojas de aluguel de roupas não deram conta. Numa casa de recepções super brega, mas tida como chique, a reunião teve início. Após uma rodada de um vinho licoroso doce, de quinta categoria, foi proposta a exibição de um documentário em homenagem as rainhas do lar. Antes, porém, um cantor sexagenário, cantou a música Mamãe, mamãe, de Agnaldo Thimóteo, confundindo o dia 8 de março com o dia da mães. Passado o engano e iniciado o efeito do vinho, começou a exibição. O filme foi trazido por um motoboy para o evento. Sua incumbência era distribuir mais dois filmes para eventos similares: um para as senhoras do vinho, outro para as sapatões enfurecidas e o último para as velhinhas de um abrigo. Ao começar o filme, algo saiu errado. O motoboy trocou as encomendas e o filme e as senhoras amigas do vinho assistiram um documentário sobre kama sutra lésbico. Além das várias posições, o DVD sugeria o swing e o sado-masoquismo como forma de quebrar a rotina do casal. Abandonaram o vinho e passaram a cultuar o ponto G. As velhinhas do abrigo assistiram um filme sobre vinho e sexualidade e na mesma noite fugiram do abrigo e gastaram a metade da aposentaria numa boteco suspeito enchendo a cara de dreher, na falta de um branco seco. As lésbicas enfurecidas se converteram ao islamismo depois de assistirem a um documentário sobre o sexo na velhice.

Diante de tudo isso, fiquei impressionado com a força da mulher na sociedade atual, com seus três turnos diários de trabalho, com a carga educacional das crianças, com o cuidado com os pais idosos, os maridos de porre e os filhos tiranos. Ainda mais fiquei impressionado como estas próprias mulheres reproduzem este mesmo terrível sistema quando educam as meninas para a docilidade e os meninos pra guerra.

Drink 8 de março:

1 champagne Veuve Clicqcot

3 morangos partidos ao meio

Tome tudo, de preferência usando sua força feminina, com aquele par que você julgar o mais perfeito.

ENQUANTO ISSO NUM RESTAURANTE NATURAL...

Fui a um restaurante natural a convite de uma amiga antropóloga e um amigo sociólogo. Claro que a coisa não poderia dar certo...

Entrei no restaurante e fui me servir. Antes, lavar as mãos como aprendi na tenra infância. Havia uma ante-sala de espera para os banheiros e ali um quadro de avisos com cartazes e coisas afins. Já fiquei impressionado com aquilo. Curso de Limpeza da Aura: limpe sua aura com o mestre Ecan em sessões de drenagem cosmotrônica. Realinhamento dos Chacras e Renovação do DNA: alinhe seus sete chacras a partir do rebalançamento das partículas subatômicas do DNA com a mestra Haia. Curso de Psicobiônica: esqueça tudo que a Ciência falou sobre a mente e o cérebro. Com o professor Satthya Barba, você poderá se conectar com a décima dimensão e entrar em contato com os seres de Capela. Fiz os cálculos dos “investimentos”: 1480 reais. A esta altura, eu já estava me sentindo na nave-mãe ao lado de Elba Ramalho que se conectou com os seres de luz após ser chipada em Conceição do Piancó, sertão-brabo da Paraíba, depois de passar três horas no sol quente recitando o mantra AUN.

Desolado, fui almoçar, enfim. Muita coisa verde. Muito mato. Muitos vegetais olhando pra mim. Algumas comidas estranhas, provavelmente oriundas de Plutão, que já não é mais planeta, mas ainda dá um caldo. Desconfiei que não havia carne, mas fiquei calado em consideração aos meus dois amigos. Mas depois descobri a fonte de proteína animal. A-ha! Enfim algo concreto, gostoso, palpável, forte, substancial, energético. Quando fui me servir de uma galinha à cabidela, vi que havia bem acima do prato um cartaz que dizia: Qualquer tipo de carne faz mal à saúde. Este “ser fabricado” que você está vendo aí abaixo pode levá-lo à morte. Somos contra este tipo de alimento. Achei que era uma piada e quando fui pesar o prato, perguntei a responsável se tratava-se realmente de uma brincadeira. Ela me olhou seriamente e me respondeu que não, ao mesmo tempo que me reprovava com um olhar fulminante por eu ter me servido da galinha, aquele “ser fabricado”.Sentei-me e comi o prato de mato com uma deliciosa galinha à cabidela que me salvou o resto da tarde.

Pude classificar os clientes daquele restaurante natural, classificação esta que pode ser usada para qualquer restaurante deste tipo:

1. Fantasmas: são clientes que já morreram, mas ainda insistem em se alimentar de folhas e comidas estranhas. São magros, pálidos, recurvados, silenciosos, mastigam mais de 50 vezes uma folha de alface, olhos esbugalhados, pele encerada, roupas indianas.

2. Pé-na-cova: são clientes que estão para morrer a qualquer momento, e que, por orientação médica ou espiritual, ainda insistem em se alimentar de folhas e comidas estranhas. São magros, pálidos, recurvados, silenciosos, mastigam mais de 50 vezes uma folha de alface, olhos esbugalhados, pele encerada, roupas indianas, vivem fazendo yoga, cursos de saúde alternativa, meditação, biodança, arte-terapia e coisas que a gente faz quando desiste da vida.

3. O-que-é-que-eu-estou-fazendo-aqui?: são clientes que estão vivos, mas insistem em se alimentar de folhas e comidas estranhas. Curiosos, politizados, alérgicos, ulcerosos ou com gastrite, professores universitários da área de humanas, jovens engajados em alguma ONG, feministas cansadas, gays alternativos e gente com algum tipo de apatia.

Comi, paguei e fiquei pensando numa bela torta de chocolate com morango cheio de agrotóxico.

Drink naturebis:

Suco de limão

Suco de kiwi

Hortelã

Clorofila

Misture tudo, tome e vire um vegetal!


ENQUANTO ISSO ÀS VÉSPERAS DE UMA ELEIÇÃO...

Estive sem escrever durante este tempo porque estou engajado na campanha do Partido da Confraria das Sanguessugas. Fiquei encarregado de recolher doações de empresas que queiram sonegar impostos. A nossa contra partida é que elas irão ganhar todas as nossas licitações fraudulentas e construir viadutos, comprar ambulâncias e prestar serviços às populações carentes. Já imagino a cena: uma ambulância superfaturada vai subindo o viaduto de cimento falsificado, a estrutura não agüenta e desaba matando uma senhora de 70 anos, sua nora malvada e o motorista da ambulância que vinha de um hospital da capital sem médicos plantonistas, sem leitos disponíveis e ameaçado por uma greve de enfermeiras.

Nada de diferente dos outros. Mas, enfim, vamos à carta-proposta do nosso partido:

- contratar aqueles vendedores da terapia do riso para substituir os médicos: eles são tão chatos que os doentes vão melhorar só pra não aturar aquela conversa fiada;

- contratar os violeiros de praia pra acompanhar os vendedores de cartões da terapia do riso;

- obrigar as militantes a usar o modelito Heloísa Helena: calça jeans fubenta, camiseta branca, cabelo oleoso sem corte, cara de ódio, histeria;

- construir hospitais-cemitério: através do plano de saúde “pague pra entrar e reze pra sair (vivo)”, o usuário já contará com o serviço de ambulância (sanguessuga) e carro funerário. Inclusive vai resolver o problema dos sem-terra, pois, uma vez morto, o cidadão terá sua terrinha garantida pra sempre!

- política de cotas nas universidade e escolas: cotas pra patricinhas, mauricinhos, bombados de academia, filhinhos de papai e toda essa gente que paga universidades privadas com sacrifício. Por se tratar de deficientes mentais, os professores aposentados iriam ser recrutados para dar aulas juntamente com aqueles chatinhos que ficam no canto da tela nos programas eleitorais balançando as mãos e fazendo careta o tempo todo.

E agora nosso programa especial de bolsas ( o carro-chefe da nossa campanha):

- bolsa-ladrão: cartão que pode ser usado à noite em lugares inóspitos e perigosos nas principais cidades. O ladrão poderá sacar o dinheiro da vítima em qualquer posto autorizado pelo narcotráfico, companhias telefônicas, planos de saúde ou assembléias legislativas e câmaras municipais ou qualquer órgão que tenha convênio com o roubo e a corrpupção;

- bolsa-quenga: visando acabar com a prostituição no país, a bolsa-quenga é um cartão que pode ser usado pela menina quando a clientela for pouca. Ela inclusive vem com um dispositivo automático que roda a bolsinha quando a portadora se aproxima de um bofe com cara de rico.

- bolsa-frango: dispositivo cor-de-rosa de uso exclusivo de bicha pão-com-ovo, atendendo à política da renda mínima e diversidade sexual. Para impressionar bofes heteros em boates da moda, a biba poderá usar esse cartão e comprar roupas falsificadas de grifes famosas. A bicharada também usa Prada!

- bolsa-feminista: cartão feito por mão-de-obra escrava de freiras virgens do Borneo, essa modalidade de bolsa tem por inspiração a sensualidade de Heloísa Helena, representante maior da força feminina do Brasil. A portadora deve brigar com todo mundo, ser contra tudo, ter atestado de histérica e apresentar claros sinais que é mal-comida;

- bolsa-ecologia: um cartão que vem com uma bolsa feita de couro de mico-leão dourado, rebordado de couro de jacaré do papo amarelo e penas de ararinha azul forrada com estômago de baleias mink; usada por militantes que vivem viajando com o dinheiro público na maior farra, eco-chatos, suicidas ou caçadores arrependidos em geral;

- bolsa intelectual-chato-de-esquerda: cartão que garante passe-livre em sessões de cinema iraniano ou filmes europeus de diretores inexpressivos, monólogos de teatro com atores decadentes, sessões de debate sobre arte popular ou de vanguarda, além de ingressos pra instalações em bienais e outras coisas sem sentido.

Assim leitor, no dia 1º, tecle 171 e confirme seu voto num país do futuro (de quem sobreviver, claro).

Drink eleitoral:

Uma vez que a Justiça não permite birita durante as eleições, tome uma dose de lactopurga e aumente a cagada dos políticos neste pleito!

ENQUANTO ISSO NA VOTA ÀS AULAS ou ENQUANTO ISSO NA FINAL DAS AULAS...

Leitores e leitoras (aprendi isto num congresso que tinha um monte de gente chata da universidade):

Depois de participar de um congresso de ex-ufólogos na Chapada Diamantina, cujo objetivo era desmascarar os ufólogos que se tornaram ex-ufólogos, voltei para terminar o semestre letivo da UFPB.

Uma Universidade que passa 101 dias em greve e o povo do país nem percebe não pode funcionar. E eu, como professor consciente, engajado e politicamente correto fui a todas as assembléias convocadas pela força sindical reformadora das estruturas repressoras deste governo que aí está. Assim que eu entrei no Centro de Vivência, local escolhido para a intentona gloriosa, havia um revendedor da Oi e outro da Claro, talvez esperando que os grevistas comprassem celulares com o aumento gigantesco. Também havia uma pequena loja de biquínis, sungas e maiôs para os grevistas que quisessem panfletar nas praias. Lá atrás, bem discreto, um camelô vendia pijamas de bolinhas e camisolas de renda para os grevistas aposentados.

Aliás, a Sociologia do Trabalho está muito defasada em seus conceitos. Não está dando conta de uma nova categoria trabalhista (?) que acaba de ser criada: o trabalhador grevista ativista aposentado. Seguinte: o cara se aposenta (às vezes bem novo), compra uma TV de 42 polegadas e passa a tarde inteira assistindo sessão da tarde, vale a pena ver de novo e shoptime. Quando começa o movimento por melhores condições de ensino (vamos resumir isto em aumento de salário, né?), o cidadão tira seu pijama, veste uma calça jeans e uma camiseta pólo e vai para as assembléias votar pela greve. Nós, da ativa, entramos em greve, corremos para a praia e eles voltam a assistir os melhores momentos de shoptime. Dizem as más línguas que a professora representante dos aposentados no sindicato dos docentes da UFPB estava passando as férias na Europa durante a greve, mas acompanhou todo o movimento pela internet. Que legal! Mais uma categoria exótica: aposentado de férias e em greve!!!

Depois de uma hora e meia de atraso, a assembléia começava. De início era feita uma análise de conjuntura altamente desconjunturada, cujo objetivo era meter o pau no governo Lula. Todos ressentidos porque elegeram o salvador do proletariado e ele preferiu a Kelly Key: “to nem aí, to nem aí, pode ficar no seu mundinho que eu não to nem aí”. Então um professor sonoplasta põe um CD com palmas para a análise. Alguns choram. Alguns atendem o celular. Outros cochilam. Muitos conchavam. As inscrições para a análise da análise de conjuntura começam. Geralmente 15 falas. O professor sonoplasta coloca o CD com as falas dos 15 professores previamente gravadas e remixadas. 10 professores analisam a análise das análises de conjuntura da ANDES, descendo a lenha no governo Lula, no FMI, na globalização, no neoliberalismo, no trânsito, na Rede Globo, na Falha de São Paulo, na sogra e no preço da gasolina. 2 professores exaltam Cuba, Fidel, Che, Violeta Parra, Florbela Espanca, JK, o Sendero Luminoso e a Al Qaeda. Os outros falam mal do sindicato. Pede-se calma para a votação. 4 professores pedem uma questão de ordem. Instala-se a desordem. A mesa diretora propõe a greve geral, imediata e irrestrita. 69 professores aposentados votam pela greve. 33 ativistas despolitizados e anarquistas votam pela greve. 5 professores alienados, direitistas, conservadores e ordinários votam contra a greve (6, me incluindo). 2805 professores ausentes da assembléia acessam a internet de casa e, como bons democratas virtuais, entram em greve na mesma hora.

Campus vazio. Debandada geral de professores e alunos. O comando de greve resiste num bunker contra armas químicas e ataques suicidas. A elite não pára: a pós-graduação, os programas de bolsistas e o Curso de História ministrado para o MST. Tá tudo dominado: até o MST aqui é elite e fura-greve! 101 dias parados e recebendo salário integral. Que farra! A matemática do caos se instala: em 365 dias, 200 dias letivos, 101 dias de greve, mais ou menos 100 dias de aula; cerca de 390 dias de salário (12 meses + 13°). Eu nunca pensei que eu algum dia pudesse ser tão privilegiado.

Após imensa batalha, a ANDES (Ai de Nós Docentes Enfastiados da Sala de aula) consegue um feito inédito: o governo nos dá as costas e edita um pacote indecente para os indecentes docentes. Voltamos no mês de janeiro para concluir algo que deveria ter sido concluído em junho de 2005. Como eu iria pra Chapada, resolvi pedir a solidariedade aos meus colegas aposentados: que um deles ministrasse minhas aulas no mês de janeiro, uma vez que não trabalham mas votaram para que eu não trabalhasse. Nenhum atendeu ao meu pedido. Tô puto! E não contentes com 101 dias parados, vamos ter um mês de férias entre fevereiro e março, já que ninguém é de ferro, concordam?

Os alunos voltaram desmotivados e loucos por notas. Os professores voltaram desmotivados e loucos pra dar notas. Os funcionários quase todos desmotivados, são dignos de nota. Até a Praça da Alegria, local de esfuziantes debates acadêmicos do CCHLA ficou mais triste. É que uma antiga e tradicional banca do PSTU, PCO e PSOL que vendia botons e camisetas com o slogan “Fora FMI” quebrou geral depois que Lula pagou antecipadamente a dívida com o FMI. 5718 botons e 910 camisetas estão agora estocadas nos porões da ditadura do proletariado.

E assim se passaram 50 anos da gloriosa UFPB. Parabéns!

Coquetel veneno anti-monotonia:

Depôs de ler três análises de conjuntura feitas durante a greve, recomenda-se:

1 copo de cana de cabeça

1 pitada de pimenta vermelha

1 colher de azeite de dendê

1 pitada de soda cáustica

Misture tudo, tome e vá aplaudir cantor de shopping em dia de domingo.