quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

ENQUANTO ISSO NO VERÃO DE 2010...


A capital está lotada de turistas. Mesmo que não haja hotéis suficientes e nem a mínima infraestrutura de bares e restaurantes... detalhes...


Sempre tem gente que nos visita neste mês de janeiro. Aí começa o sofrimento: ter que levar nas praias de manhã, à tarde na Estação Ciência e ao entardecer, ai, ao por do sol do Jacaré. É muita provação.


Fiz isto com um casal de amigos. De manhã fomos inventar de ir à praia. Bessa: lotada; Poço: inchada; Camboinha: tumultuada. Encontramos um bar na beira da praia em Camboinha, já com a água do mar batendo nas mesas, apesar da maré baixa. Havia um certo desespero num grupo que se estapeava pra conseguir uma mesa. O filhinho do casal com um cachorro poodle latindo desesperadamente corria de um lado pra outro de sandálias havaianas espalhando areia nos ensopados de ostra (sem ostra) pelas mesas. Os garçons, coitados, aturdidos com tantos pedidos colocaram cachaça para um senhor do AA e refrigerante para uma senhora diabética. Já que pagaram o 13º salário, os donos dos bares não contratam empregados no verão. Na orla, as pessoas não podem transitar porque as mesas invadem a areia até o mar. Não podem se banhar porque os playboys estão apostando corrida de jet sky. A famosa Areia Vermelha fica mais poluída de que cemitério em dia de finados, com o som estridente de barcos, latas de cerveja boiando ao lado de copos descartáveis, merda de criança e resto de comida de adultos.


À tarde, logo cedo, fomos à estação Ciência de Arte e Cultura. Entramos para ver o quadro de Flávio Tavares, mas não deu. Havia uma fila de turistas ensandecidos para tirar uma foto diante do quadro e muitos deles nem ao menos sabiam de que se tratava o mesmo. Como todo museu moderno não havia nada pra ver. Acompanhamos uma multidão agitada que subia pelos elevadores e escadas. Pensamos: é uma exposição interessante. Não era. Todos corriam tresloucados para tirar uma foto da parte superior da estação. Era melhor rebatizar de Mirante, Ciência e Cultura... Maldita hora em que inventaram estas câmeras digitais e este famigerado Orkut. Milhões de caras e bocas e fotos e mais fotos. Uma mãe perdeu seu filho na multidão e pediu outra criança emprestada para pousar no lugar do filho perdido. Um rapaz aproveitou para tirar uma foto da senhora e mostrar a sogra o quanto ela era desprezível na vida dele. Um fotógrafo fazia montagens com os turistas. Tirava um foto ao lado do prédio como se o turista estivesse segurando uma taça, aos moldes das fotos do Padin Ciço no Juazeiro com a mão na cabeça dos fiéis.


Lá pelas 16 horas, fomos à praia do jacaré assistir ao famoso por do sol. Minha azia bateu forte e meu usual mau humor se espraiou de vez. Uma barulheira infernal nos bares hiper lotados deixava o sol e o rio como elementos menores. Saindo às 4 da manhã da nascente do rio Amazonas, depois de longa jornada, eis que surge uma imagem de uma índia inca no horizonte. Engano meu: era Jurandir do Sax. Numa canoa, vestindo uma tradicional roupa cerimonial e um cachecol de pele de lhama laranja-cheguei-neon, o sax em punho, se ouve um ruído ao longe, o que me pareceu ser o Bolero de Ravel misturado com gritos de clientes nos bares, pessoas berrando por um lugar ao (por do) sol para fotografarem aquela cena dantesca. De longe surge outra canoa com outro saxista executando o mesmo bolero. Como numa corrida de remo, os canoeiros tentam chegar o mais rápido possível ao cais com os artistas tocando o bolero que incrivelmente é acompanhado de uma orquestra imaginária nas caixas de som dos bares. Sinto o confronto se aproximar. Com os saxes em punho os dois artistas se engalfinham entre palavrões e socos. A galera se agita e se transforma numa arena romana naquele coliseu aquático. Com um golpe certeiro, Jurandir do sax cai na água e eu posso ouvir o bolero sendo executado ao som de bolhinhas no fundo do rio. A massa de turistas aplaude. O saxofonista vencedor chega ao cais e sobe imponente a rampa ao som daquela música chatíssima que a Globo colocava quando Airton Senna ganhava uma corrida. O sol se põe, sem que ninguém veja. A fim de conter os ânimos, os bares colocam a música “Ave Maria”. Como a maioria já está bêbada eu vejo alguém tentando dançar coladinho enquanto Elba Ramalho entoa sua Ave Maria no volume máximo.


Eu mereço...


Um drink para o verão no Jacaré:

1 copo de cachaça

1 pitada de antiácido efervecente

1 rivotril

ENQUANTO ISSO NA MARCHA PRA JESUS


A Marcha para Jesus foi um sucesso e tanto. Antes ela começava lá na Epitácio, mas agora o percurso é bem curtinho. Falta fé ou resistência física aos fiéis?


Os organizadores resolveram colocar uma campanha de doação de sangue desta vez, talvez inspirados na paixão de cristo. Quando a festa estava no auge, com louvores, dancinhas comportadas, cerveja sem álcool, litros e mais litros de água mineral, rolou um estresse tremendo. É que de repente um grupo de gays e drags apareceram na orla em plena marcha a saltitar, gritar e distribuir camisinhas.

Vindos do interior, as bibas erraram a data. Como a parada gay e a marcha para Jesus acontecem em finais de semana colados, eles pensavam estar na parada gay quando a manifestação era a marcha pra Jesus.


Ao verem uma biba vestida de vampira pop, alguns organizadores até pensaram se tratar de um golpe de marketing para a campanha de doação de sangue. Ao verem uns rapazes de jaleco, algumas bibas até pensaram estar diante de go-go boys prontos para mostrar as sunguinhas por baixo do jaleco. Mas até então todos dançaram livremente. Eis que um pastor chega perto de um dos gays e pergunta se ele aceita Jesus. “Menino, eu dava um chega pra lá naquela Madonna e rasgava Jesus todinho!” responde o entendido. O pastor acha estranho, mas pensa se tratar de um destes católicos moderninhos, já que ele falou em Madonna, a Nossa Senhora, mas ainda não sacou este lance de rasgar Jesus.


Lá pras tantas, as bibas acham estranho não rolar nenhuma música eletrônica, não ter nenhum carro de som com neon, além dos rapazes presentes estarem tão certinhos. Depois de muita cachaça, as drags partem para o ataque frontal. Tentam beijar um pastor cinquentão que levantava as mãos para o céu em louvor. Uma drag pensou que ele estava cantando “It´s raining man” e grita “aleluia” já partindo para um beijo de língua mortal. Quando os fiéis enrustidos olham aquela cena, gritam “uh-ruh!” e se agarram com as bibas numa cena prá lá de Sodoma e Gomorra. Alguns pastores mais tradicionais acreditaram se tratar de uma encenação sobre 2012, o final dos tempos.


Um grupo de senhoras evangélicas se abraçaram com duas travestis imaginando que finalmente o movimento evangélico seria capaz de salvar aquelas almas perdidas. Neste encontro, uma das travecas encontra um dos maridos destas senhoras e o reconhece gritando: “Trajaninho, vem chupar sua bubuca, bofe!”, explicando à senhora que o honrado senhor Trajano, nas horas vagas se veste de bebê e fica chupando a bubuquinha dela, pra sair leitinho. O senhor chega a ensaiar um enfarto, mas sua esposa já adere ao movimento xuxuquinha, dizendo realizar finalmente o sonho de chupar um bubu que funcione.

No bucho de Tamandaré, a festa termina com balões e camisinhas infladas, os enfermeiros do da coleta de sangue arrastados pra uma boate gay e algumas bibas se convertendo enfim aos bons e retos caminhos de Jesus, sem Madonna!

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

ENQUANTO ISSO NUM VERÃO TOTAL

João Pessoa é mesmo uma cidade interessante. Cidade de mar tranquilo e noites muito tranquilas também. Aqui se dorme cedo. Talvez seja o ar bucólico de uma cidade do interior com ares de capital.
Mas nem tudo é sossego. A capital contou neste verão com muitas atrações legais. O Fest Verão foi um acontecimento. Atrações inéditas: bandas de forró de plástico e axé music da pior qualidade. Aliás, um dos pré-requisitos é sempre não se importar com a música e sim com a onda. Tem ainda quem aguente aquele negócio de mãozinha pra cima, passinho pra trás? Saco! E as bandas de forró com nome de comida e com aqueles dançarinos elétricos, aquelas louras de água oxigenada? Pra coroar tudo, a presença marcante de Chiclete com Banana. Herança maldita de Campina Grande, o Chiclete se apresenta até em festa de 15 anos, fazendo os chicleteiros encararem músicas novas que se parecem com as antigas e músicas antigas com aparência de novas, pois tudo é a mesma coisa. Parece chiclete muito mastigado. Não importa o sabor inicial, o fim é sempre o mesmo: uma massa inerte e sem gosto. A vantagem é que o abada é tão brega que já serve para o Bloco Cafuçu.
Saindo da poluição de Camboinha, Poço e adjacências e voltando pra civilização sonolenta da capital, me deparo com o Verão Total. Bacana este verão total. É tão total que mais parece inverno. À beira-mar uma estação de patinação no gelo! Contem-me, leitores, o que tem o povo desta cidade pra gostar tanto de pista de patinação? É pista nos shoppings, é pista na praia. Mania de Europa, é? Soube até que tinha uma pista de patinação sem gelo num dos shoppings. As crianças pareciam miniaturas de Frankstein tentando se arrastar de um lado para o outro numa pista de silicone... Dava pena. As atrações do verão total foram as mais esdrúxulas. Uma pista de patinação numa tenda (na verdade um iglu gigante) na qual se entrava com um kilo de alimento. A fila começava no Hotel Tambaú. Gente com fubá, cuscuz, arroz de terceira e feijão de quinta, num calor insuportável a espera de 10 minutos no Holiday on Ice! Também havia uma bola transparente numa piscina suja, brinquedo que tinha como meta fazer com que um cristão permanecesse em pé durante a travessia da piscina. Melhor atravessar o Mar Vermelho acompanhado de Moisés.
Nos outros cantos do país tudo acaba em samba. Aqui tudo acaba em religião. Pra celebrar o fim do verão total, houve uma partida de futebol de areia entre padres e pastores. Uma lástima! A briga começou porque ambos os times tinham escalado jogadores com o nome dos 12 apóstolos. Em seguida, a peleja foi em relação ao juiz. Seria um homem de Deus? Pastor ou padre? Cogitaram um espírita, mas este seria suspeito por falar com espíritos. Talvez um budista, mas ele iria meditar e não cobraria nenhuma falta. Os hindus nem pensar, pois estavam todos de figurantes na novela Caminho das Índias. Ninguém cogitou um pai-de-santo... Ainda pensaram no arcebispo, mas ele estava patinando no gelo. Por fim, resolveram chamar um representante dos Alcoólicos Anônimos. Foi um desastre total. Depois de inúmeros erros de arbitragem, descobriu-se que ele era um dissidente do AA de Areia. Na verdade ele evitava o primeiro gole, mas tomava os demais sem culpa. O culpado, pra variar, foi o Diabo, injustamente, pois ele estava no show de Ivete Sangalo, balançando os chifrinhos e tirando os pezinhos do chão. O time dos padres ganhou por 6 a 5 graças a um conchavo que contou com a ação das beatas da comunidade Mamá, que tem integrantes que adoram mamar nas tetas do governo.
Pra finalizar, um drink fim de verão, para meu leitor Saulo, estressado por ter ficado na fila de patinação por 8 horas quando o gelo já havia se derretido.
1 dose de montilla (feito em Guarabira)
Raspas de gelo da pista de patinação do verão total
Beba, não dirija e nem patine!

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

ENQUANTO ISSO NAS FESTAS DE FINAL DE ANO...

É claro que vocês já devem saber que eu detesto estas festas. Todo mundo fica com aquele ar de bonzinho, esquecendo todas as desgraças que fez durante o ano e ainda vão sacrificar o peru pra se redimir. Pô, e aqueles bichinhos animados do Orkut? Ninguém merece.

Esta época é mesmo muito irritante. Aquela musiquinha da Globo “hoje a festa é nossa...” agora cantada por um elenco de pobres deslumbrados por estarem na telinha. Como se não bastasse, as retrospectivas em todos os canais. E ainda tem o Cansástico, com a voz póstuma de Cid Moreira (ele morreu em 1987 quando foi abrir o microondas e o botox da cara dele explodiu fazendo com que sua namorada pensasse que a sobremesa era pudim de morango).

Mas o ano termina bem para o Brasil. O show business conseguiu o que os católicos, protestantes e espíritas kardecistas nunca conseguiram: transformar Jesus numa celebridade pop. Numa reunião de cúpula, pastores, bispos e presidentes de centros espíritas, todos imbuídos de muita fé e extremamente preocupados com esta onda esotérica que assola o planeta, resolveram contratar Madonna para “ficar” com Jesus. Que país é este? Ao invés de cultuar Jesus menino numa manjedoura pobrezinho em Belém, Jesus é embalado no colo de Madonna! Mas a ala mais conservadora das igrejas cristãs explicou na imprensa: Madonna é madonna, e ela inclusive já até se disse “like a virgin”.

2008 realmente foi um ano muito erótico: no poder local, entra maranhão, sai maranhão, entra maranhão, sai maranhão. É a Paraíba exportando fetiche pra todo o país. Ouvi até falar que em Bayeux iriam abrir uma fábrica de produtos eróticos de última geração, principalmente os pênis com vibradores nas cores preto e vermelho com o nome nego em alto relevo. Desconfio que o IBAMA está por trás da política local na Paraíba: cassa, não cassa, cassa, não cassa!

Por isso que um amigo meu depois de um culto que demorou 4 horas, puto da vida, ao invés de comer o peru, comeu a perua casada com ele e foi roncar. Soube também de um rapaz que depois de ganhar um perfume barato num amigo secreto, resolveu engolir o peru e soltar a franga em 2009.

Mas nem tudo está perdido. Eu é que sou mal-humorado. Se você quiser se divertir, tente ir assistir à orquestra sinfônica na praia num meio de um povo berrando e falando alto como se estivesse no churrasco da sogra, tomando banho de mangueira e comendo lingüiça de promoção. Ou então invente de ir a qualquer bar pra esperar duas horas por um lugar, ser mal atendido e ainda achar bom porque conseguiu uma mesa. Mas se ainda assim, você estiver se sentindo desconfortável, vá a um shopping e se depare com uma multidão de gente avermelhada de sol, furando filas, se esmurrando nos elevadores, atendendo celulares no cinema, fazendo caretas nos cenários de natal-inverno (coisa de colonizado que quer ser americano) e tirando sua própria foto com o braço super esticado diante da neve. Ainda não se contentou? Fique meia hora observando a classe média empobrecida olhando pelo cercado seus filhinhos caírem na pista de gelo, esperando pra depois comerem um sanduíche americano e comprar alguma bugiganga nas liquidações das lojas baratas.

Em homenagem a Van & Cris, o drink “Saia do planeta”:
1 dose de campari
1 dose de cachaça
1 dose de Dreher
Misture tudo e vomite no tapete da sua sogra no ano novo!

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

ENQUANTO ISSO NUMA PARADA GAY...

Apesar da síndrome de castração de João Pessoa (uma cidade que tem um aeroporto chamado Castro Pinto já diz tudo), o povo foi pra rua prestigiar a Parada Gay neste domingo.

Foram contratados cinco trio-elétricos para caber a faixa do evento: (MGLSTTDBLHSRSASBAAFU) Movimento de Gays, Lésbicas, Simpatizantes, Transsexuais, Travestis, Drags, Bibas, Lesbianas, Homoeróticos, Sapatões, Recém Saídos do Armário, Sapas, Bichinhas Ainda no Armário, Fechosas, Ursos e afins. Infelizmente só foram dois trios e a comunidade teve que se resumir ao GLS.

Antes da realização do evento, muitos debates acalorados foram feitos. A Associação dos Ursos reclamava que no trios só rolava os bombadões go-go-boys do Movimento dos Depilados ou então as Drags, todas também sem pelos. O Coletivo Maria do Rosário, de sapatões cristãs, alegava que as músicas que iriam rolar na parada estavam mais voltadas para o axé do Coletivo Obaluaê, de caminhoneiras carga pesada. Os meninos da Associação dos Povos Sem Bofe se estranharam com os bofes responsáveis pela segurança do evento, pois o Sindicato dos Go-go Boys de Bayeux queria receber uma grana antecipada para desfilarem acompanhados. Enfim, solucionados todas as pendengas, o impasse final aconteceu: quem seria a atração da Parada? As meninas do Movimento do Coturno Enlameado clamavam por uma banda cover de Bruno e Marrone. Os Gays Calcinha Cor-de-Rosa insistiam em chamar um clone de Leonardo. O Sindicato dos Ursos Lenhadores tentaram contatar Tony Ramos sem sucesso. O Coletivo Maria Tênis Grande, das sapatões ligadas em esporte, lutava pela presença da arremessadora de peso dos jogos de Pequim ou, na falta desta, por qualquer jogadora de futebol trajada com o uniforme da seleção brasileira.

Depois de muitos debates, com a parada organizada, a hora era de botar o bloco na rua. Apesar das igrejas anunciarem o Apocalipse, a concentração da parada bombava. Os organizadores deram por falta do Coletivo Ainda Dentro do Armário, que não vieram por razões óbvias. Outra ausência foi do Movimento “Eu Sou Gay Mas Só Quem Sabe é Meu Terapeuta” porque tiveram receio de surtar e soltar franga na multidão. Soube, de fonte segura, que muitos gays não foram por terem aderido a uma religião que prega a volta imediata ao armário, a cura dos pitis e a revolucionária droga reparadora de pregas perdidas.

Os gays “cabeça” ficaram contemplando o mar, a lua cheia ao som da bossa nova de um dos trios. Os mais atrevidos queriam pagode e axé pra remexer o esqueleto. Quando, por fim, a banda de axé (ou seria pagode, ou seria sertaneja, ou forró de plástico?) começou a tocar, houve um contágio geral. Um grupo de meninos do Coletivo Bichinhas Pão-com-Ovo, parecia que estava tirando um espírito de tanto rebolar e rodar. Até a Comunidade Pomba Gira, formada por muitos adeptos de várias opções sexuais, políticas e diferentes posições (estas que vocês estão pensando mesmo...) cismou com tanta performance. Alguns homens que não se acham gays, apesar da vizinhança, dos amigos, dos parentes e aderentes já saberem que são, passeavam pela orla com aquele olhar “24”, um olhar que não sabe se engole ou se cospe. Algumas drags pareciam ter saído de um casamento da high society, tamanha elegância e andar de modelo do terceiro mundo.

Mas a parada gay de João Pessoa é bem excêntrica mesmo. Em algum bar GLS chique, alguns gays mais higiênicos se recusaram a se misturar com a galera da parada. São um tipo de gay bastante hétero. Preconceituosos, nunca fizeram sexo como passivos, segundo eles mesmos dizem. São todos ativos, vestidos de grife e com uma carinha de bicha fenomenal que sempre faz carão pra quem quer que seja. Não se reconhecem e nem se sentem bem em locais tão populares quanto uma parada. Bebem socialmente refrigerantes, exibem seus celulares de última geração comprados em 24 meses na internet, mas soltam todas as frangas quando estão fora dos limites da cidade. Se jogam e se transformam naquilo que eles mais temem: pessoas livres que transam livremente, se permitem e se realizam nas paradas que a vida nos oferece.

Pra vocês o drink Parada Gay:

1 dose de vodka ou de cana

1 colher de Quick cor-de-rosa (ou na sua falta, qualquer essência rosa serve)

Mexa ao som do axé-brega e engula a mistura antes de cair na farra!


segunda-feira, 10 de novembro de 2008

ENQUANTO ISSO NOS RESTAURANTES ASSALTADOS..

A moda entre a classe média de João Pessoa agora é ser assaltada em algum restaurante famoso.

Nas rodas dos novos ricos, a grande discussão é quem nunca foi assaltado. Hoje em dia isto é tido como falta de classe, pois só quem nunca foi assaltado é quem nunca vai aos melhores restaurantes. Numa destas revistas locais, distribuídas gratuitamente (pois se custasse 5 reais nem uma alma viva compraria), saiu inclusive um ranking dos restaurantes mais cobiçados pelos meliantes.

No Clube das Amantes do Vinho houve um quebra-pau, pois um informante do presídio do Róger avisou que um tal restaurante da orla iria ser assaltado, e as mulheres do clube brigaram ferozmente para saber quem iria conseguir uma mesa. Por outro lado, no Clube do Whisky do Irmão Raparigueiro, os homens debatiam como incentivar os assaltantes a levar não só os pertences mas também as suas mulheres nos assaltos. Talvez comprando jóias caras, com fechos complicados de abrir. Talvez passando para o nome delas todos os cartões de crédito com as respectivas senhas. Outras dicas de um viúvo que teve sua esposa seqüestrada e morta por bandidos foram: pintar o cabelo de louro (todas já fazem) pois os bandidos, como os jogadores de futebol e os novos ricos, adoram uma Marylin Monroe tupiniquim; pagar um plástica para que elas fiquem parecidas com Britney Spears (mas todas sempre ficam com a aparência de Dercy Gonçalves).

Os donos de restaurantes já contam com um serviço de simulação de assalto, curso de três dias com direito a couvert artístico pago a ex-presidiários que atuam como professores.

Há inclusive um curso oferecido por Carmem Mayrink Veiga, falida e mal-paga, para emergentes da capital de como enfrentar com classe os bandidos também emergentes. O curso inclui boas maneiras na hora que a vítima for abordada, como retirar os valores das bolsas sem derramar os copos, como chorar discretamente sem borrar a maquiagem, como manter a histeria com classe sem gritos e sem rasgar a roupa, dicas de se comportar como o machão protetor da esposa sem esboçar a satisfação num riso cínico, como se dirigir à delegacia e usar um bom português nas questões do B.O. Muitos novos ricos de João Pessoa criticaram o curso de Carmem, pois como ela está falida há muitos anos, a experiência com assaltos é quase nula.

Por outro lado, os assaltantes estão muito decepcionados com os roubos na capital. Muito trabalho por nada. A maioria das bolsas e carteiras são feitas de courine, compradas no Paraguai, no Saara ou na 25 de março. Há denúncias graves no sindicato dos assaltantes de restaurantes da orla que já encontraram inclusive artigos do próprio terceirão. Cartões de crédito estourados, contas bancárias sem saldo, cheques sem fundos, jóias levemente banhadas a ouro 14, celulares contrabandeados, uma lástima enfim. A maioria dos carros roubados é abandonada, depois que os assaltantes descobrem que são leasings com várias prestações em atraso.

Dizem as más línguas que haverá uma reunião com representantes dos emergentes e representantes dos assaltantes para regulamentar estas práticas. As perdas já atingem patamares alarmantes, piores do que os índices das bolsas de valores. Os novos ricos de João Pessoa precisam ter acesso a mais empréstimos a longo prazo urgentemente. Os bancos públicos já pensam numa linha de crédito só para manter a categoria dos assaltados e a honradez dos assaltantes. Salvem nossos novos ricos! Salvem nossos velhos pobres!

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

ENQUANTO ISSO NUM HALLOWEEN

A cultura brasileira é muito americana mesmo. Tem grupos de torcida organizados para Barak Obama entre os intelectuais e para John McCain entre os direitistas do DEM(O). O que eles têm em comum é que todos engordam devorando Mac lanche feliz com seus filhos obesos nos finais de semana de shopping.

Nesta miscelânea cultural, houve um encontro inusitado no dia 31 de outubro em pleno centro da cidade. Seguinte: havia a inauguração de uma igreja evangélica chamada Comunidade Evangélica Vou Guiar os Servos do Senhor, carinhosamente apelidada de Vou-gui. No mesmo dia, uma boate GLS de nome parecido comemorava o Halloween com shows de drags vampiras e performances variadas. Vindos do interior num ônibus fretado, uma comunidade evangélica se perde nas ruas do centro da capital. O motorista, um homem dos seus sessenta anos, desce com uma bíblia na mão e pergunta a um flanelinha onde é a Vou-gui. De cara, o garoto aponta para a boate, mas avisa que só vai abrir mais tarde. Sentados na praça do bispo, os evangélicos esperam até às 11 horas quando a boate abre suas portas. Algumas evangélicas retocam seus longos cabelos. Os rapazes, a maioria da excursão, penteiam seus cabelos e seguram a bíblia com fé.

Os porteiros da boate e os seguranças não estranham a comunidade que agora entrava na boate, pois tipos exóticos nunca faltaram por lá. E como era Halloween, nada mais normal de longos cabelos, fantasias, caras e bocas. Entraram. O pastor estranhou um pouco aquele ambiente, mas as coisas da capital são sempre diferentes mesmo. Tudo em nome do Senhor. Mas já de cara os evangélicos curtiram o lugar: um palco, luzes, som... Nada mais parecido do que um show gospel! Os hinos eram em inglês com uma batida diferente. A turma jovem adorou. O movimento gospel era mesmo bom: trazia as novas tendências da música mundana para a vida sagrada das hostes angelicais. Acostumados com shows do axé-gospel de Lázaro, com os gritos de louvor de Elaine de Jesus, com os rebolados sagrados de um cantor da capital, aquele palco já trazia o clima de mais um espetáculo da fé.

Por volta da meia noite, os frequentadores assíduos começam a chegar. Bibas emplumadas, sapinhas arrochadas, gente com vassoura (um pau é sempre bem vindo nestas ocasiões), bruxas com chapéus rosa-choque, enrustidos com capas de vampiros, curiosos fazendo carão. A tropa invadiu a boate e se misturava, pouco a pouco, com os evangélicos. Todos riam, pois a festa à fantasia tinha uma dupla interpretação: de um lado, as bibas se impressionaram com o público novo, acreditando que o movimento gay estava cada dia mais forte, arrasando; do outro, os evangélicos se deliciavam com as expressões de fé talvez próprias das pessoas da capital, talvez uma crítica feroz ao diabo que se traveste de bruxa, de feiticeiro, de macumbeiro. Devia ser uma peça gospel.

De cara, o motorista foi confundido com Madame Mim e levou uma cantada de um menino fantasiado de Bambi. Uma senhora muito recatada sentada num cantinho foi abordada por uma bibinha que, alisando os longos cabelos dela, perguntava quem deu aquela escova tão perfeita. Uma sapinha tentou seduzir duas evangélicas prometendo a elas o paraíso na estrada de Cabedelo. A mulher do pastor rodopiava feito uma carrapeta no dancing, numa performance à la Pomba Gira, aplaudida por um grupo de drags que na visão gospel deveriam retratar as bestas do apocalipse. Algumas senhoras ficaram atônitas com tantos beijos na boca, coisa que os maridos já haviam esquecido há tempos. Mas aquilo deveria ser a manifestação das línguas de fogo de pentecostes.

Eis que se inicia o show das drags-vampiras. A primeira delas, vestida numa mistura de Drácula com Mickey Mouse, anunciou a presença de vários novatos na área. Gritava: são os eleitos, são a nossa salvação! Os evangélicos se sentiram muito prestigiados com tamanha honraria. Os eleitos do Senhor para a salvação das almas. As drags deveriam ser a representação do mal que paira sobre a terra e logo depois, acreditavam eles, os guardiões de Gedeão iriam expulsar todos os demônios do palco. Seduzido por um carinha que ainda estava no armário, um jovem evangélico tomou todas e subiu ao palco quando o DJ rolou a música I will survive. Foi a revelação da noite. As bibas amaram o strip tease do boy. Os evangélicos finalmente tiveram seu guardião expulsando os demônios e se despindo de suas roupas numa demonstração de completo desapego material. Tudo ia bem, quando uma Barbie (gay com corpo de Tarzan, voz de Jane e cérebro de Chita) subiu no palco e lascou um beijo de língua no evangélico-stripper. Comoção geral. A música parou. Agora a verdade iria ser revelada para ambos os lados. Os evangélicos gritavam: aleluia, aleluia, Judas não triunfará! O povo GLS berrava: arrasa pintosa, é rosa!

Mas tudo correu bem no final. Às cinco da manhã, os evangélicos encontraram o motorista se despedindo da bibinha na lateral do ônibus. Entraram em paz e voltaram para o interior pensando nos momentos de louvor tão diferentes vivenciados na capital. A conversão foi geral. Saldo: evangélicos de purpurina; gays, lésbicas e simpatizantes livres das maldições...