quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

ENQUANTO ISSO NO CANADÁ...



Agnaldinho Campello, conhecidíssimo calunista social de capital, depois de uma bem sucedida campanha para colocar o nome de uma emergente sapatão no rol das mulheres aceitáveis pela elite pessoense, mandou seu rebento para o Canadá.  O rapaz queria aprender inglês, mas o pai por não entender muito de geografia, enviou o menino para Montreal onde se fala francês e não inglês.  O rapaz, no frio canadense, sofre de depressão e enjoo, tédio e bullying na escola.

Na verdade, Agnaldinho Campello vive de sugar os possíveis emergentes da cidade.  Tem uma equipe que fareja a chegada de novos ricos para deles extrair o quanto puder em dinheiro, favores e  todo tipo de extorsão que garanta a entrada deles no mundo dos ricos e famosos (????) de João Pessoa.  Parte da equipe da calunia social é especializada em fazer dossiês sobre raparigagens, cornices, viadagens e troca-trocas no meio emergente e depois chantagear a society local em troca de “presentes” como passagens aéreas, viagens internacionais, festas deslumbrantes, carros importados, pagamento de faturas de cartões de crédito e coisa do tipo.

Imitando o BBB, os emergentes e a pobre elite pessoense faz de tudo para ter uma nota nas calunias sociais ou se possível, fotos. Querem aparecer de qualquer jeito.  Por causa disto, tanto  Agnaldinho quanto outros calunistas sociais entram nas lojas de roupas, perfumes e sapatos e escolhem o quem bem quiserem, sem ao menos perguntar o preço.  As atendentes desavisadas vão cobrar a conta e eles fazem a pergunta clássica: “você sabe com quem está falando?”  A gerente corre aflita e explica que já está tudo pago, pois senão a loja será difamada na calunia social do próximo domingo.  Passam a sacolinha em agências de viagens, hotéis e restaurantes. 


Certa vez, num famoso motel da cidade, uma calunista social e seu amante não tinham como pagar a conta.  A gerente ameaçou chamar a polícia, mas a calunista era casada e temeu que sua estória fosse parar na calunia social de seus amigos calunistas. É um mundo bem solidário.  O amante escapou sorrateiramente do motel no carro da madame dizendo que ia pegar dinheiro no caixa eletrônico mais próximo.  A calunista ficou no quarto, por longas 5 horas e nada.  Sem lenço e sem documento foi resgatada por um editor de revistas de festas em troca de 5 convites para um famoso réveillon.

Dominica Gretta, outra famosa calunista, ameaça divulgar uma intoxicação intestinal em sua calunia diária para não pagar as contas dos restaurantes que frequenta.  Flavinho Belaldo, outro malandro, se especializou em organizar eventos internacionais para jovens emergentes.  Leva seu amante, um pequeno delinquente especializado em boa noite cinderela para homens maduros, como auxiliar técnico.  Teve seu carro zero tomado de uma concessionária depois de atrasar o leasing por 8 meses.  Tentou extorquir o dono da empresa, mas este ameaçou contar aos outros calunistas que Flavinho pagou o seguro do carro com um cheque falsificado pelo seu amante.

Neste mês de janeiro, estão todos pela área das praias de Cabedelo tentando descobrir entre campinenses, areenses, sertanejos e gente que mora em João Pessoa e aluga uma casa por lá, os mais eficazes métodos de capturar estas presas que sonham um dia aparecer nas calunias sociais da nossa famosa capital.

Drink calunia social:
1 dose de Royal Salutte (coloque um whisky qualquer na garrafa de Royal Salutte que os emergentes nem vão sentir a diferença)
Complete com água de côco ou Perrier (coloque qualquer água na garrafa Perrier que os emergentes nem vão sentir a diferença)
Três cubos de gelo (repita o procedimento da água)

domingo, 25 de dezembro de 2011

ENQUANTO ISSO NUM NATAL MUITO CHIQUE...

Anvisa pede ‘recall’ de próteses de mama
A Anvisa recomendou ontem um recall nas próteses de silicone vendidas no Brasil pela empresa francesa PIP até 2010, quando seu uso foi proibido. Cerca de 25 mil brasileiras implantaram essas próteses. O motivo é o risco de rompimento no interior do organismo.

Ao ler esta notícia, Roberta Kelly, filha única do empresário Arnóbio Juvêncio, do ramo de construção, teve uma crise histérica. Dizia a todas as amigas invejosas que o silicone dos seus peitos era importado da França, pois seu cirurgião plástico prometeu que os homens iriam sentir gosto de champanhe ao sugar os lindos seios da ricaça.  Era a sexta plástica dela, mas pouco adiantava devido a sua genética: Roberta era conhecida por seus amigos como Bebeta Carranca, apesar do aparelho ortodôntico, de ter serrado o queixo, consertado as orelhas de abano e implantado cabelo na testa (também conhecida como testa de tela de cinema).

 
A mãe, dona Severina Juvêncio, tentava em vão consolar a filha, pois seu personal stylist, um colunista social golpista, recomendou à velha senhora que evitasse quaisquer escândalos na Noite de Natal.  


Para introduzir a família Juvêncio no high society pessoense,  Bebeto Carlos (originalmente Roberto Edson Carlos  em homenagem aos reis da música e do futebol) criou uma festa de natal chamada Night of Santa Claus, carinhosamente apelidada de Balada da Santa, a lôca,  pelos inimigos gays. Dona Sev juntou todas as beldades do alpinismo social da cidade num magnífico salão de festas.  Para fazer uma surpresa aos convidados, a velha senhora se travestiu de Mamãe Noel para descida da escada à meia noite. Acompanhando dona  Sev, seu Arnóbio Juvêncio, também vestido de Papai Noel, depois de ter tomado todas, subiu para conduzir sua esposa. Sentia saudade das festas na lage, com pagode e picado e muita raparigagem.
 
Ninguém na festa conhecia o casal e pouca gente ali sabia quem era Roberta Kelly.  E por falar em Roberta, ela estava puta da vida, pois sua roupa de filhinha Noel não deixava seus peitos à mostra. Até Antônio Rubens, namorado dela, filho de uma família importante e falida, estava vestido de genrinho Noel.  Toninho tinha um caso com a empregada da família e quase foi flagrado comendo a moça no gazebo de massagem.  


Juntamente com o colunista Bob Carlos, criou uma rede de prostituição com jovens estudantes de Universidades privadas. Um dos ramos desta empresa cuidava de organizar festas e extorquir os novos ricos ávidos por fama e reconhecimento social. Além disto, tinham uma editora que fazia revistas com as fotos dos novos ricos.  A empresa ia bem.  Seu novo empreendimento era conhecer a Europa e Estados Unidos fazendo fotos de 15 anos nos lugares turísticos.  Aproveitavam as viagens para contrabandear roupas e eletrônicos vendidos aqui na capital por high society bag carries (sacoleira em inglês, pra ninguém desconfiar). Depois das festas, Bob Carlos e Toninho vendiam caixas e mais caixas de champanhe e whisky aos novos ricos.  Era uma ciranda sem  fim.
 
O dinheiro da família Juvêncio vinha da lavagem de dinheiro via construção civil.  Vizinhos de Fernandinho Beira Mar no Rio de Janeiro, comandavam uma rede internacional de lavagem de dinheiro.  Aqui em João Pessoa, construíam mega edifícios e vendiam a preços exorbitantes também aos novos ricos da cidade.  Um dos tentáculos desta empresa era a venda de carrões importados, tudo em nome do sucesso da elite new rich da cidadela. 

 
Voltando à festa, seu  Arnóbio, na descida da escada, tropeçou no longo de dona Severina (Sev, para os chiques) e rolaram os dois escada abaixo. Aplauso geral dos convidados com a performance do casal natalino. Com a confusão rolando, duas elegantes damas da sociedade alpinista aproveitaram para roubar seis pares de talheres de prata, completando assim seus faqueiros.  Antônio, o namoradinho de Roberta Kelly, também aproveitou o evento para transar com uma convidada no banheiro dos garçons. Mas quando os dois saíram do banheiro, viram o marido da moça fazendo um boquete num dos garçons.  Como são pessoas chiques e civilizadas, voltaram as suas mesas e trocaram selinhos noite adentro.  Na queda, a peruca de dona Sev ficou presa num arranjo floral da escadaria e imediatamente Bob Carlos pegou uma touca de uma das garçonetes e resolveu o problema. Quase ninguém notou, pois nestas festas a inveja impera.  Cada convidada olhava para as bolsas, os sapatos e vestidos da sua concorrente de mesa vizinha.  Os maridos conversavam sobre haras, carros, golfe e raparigas. Coisas que liam, ou melhor, viam, na revista Playboy e VIP.

 
Assim rolou mais um Natal chique na vila pessoense. Noutro dia, ressaca, leitura das colunas sociais, fofocas, e a ansiosa espera da publicação da revista de festas chiques, até que outro evento maravilhoso aconteça na maravilhosa vida destas pobres ricas criaturas.

 
Drink natal high society:

 
1 dose de campari contrabandeado da Itália
1 pitada de chilli contrabandeado de Miami
Complete com gelo feito de água Evian (não é, mas diga que é)
Enfeite com um ramo de mentha crispa (é hortelã mesmo)
Beba fazendo cara de quem foi sempre rico (uma carinha meio emburrada, com os olhos um pouco caídos e o canto da boca levemente arqueado pra baixo)

sábado, 24 de setembro de 2011

ENQUANTO ISSO NUM DIA SEM CARRO...



No dia sem carro, resolvi aderir à campanha. Detalhe: só eu! Nunca vi tanto carro na rua como na quinta 22 de setembro. Saí pra aula na UFPB às 7, pois a aula seria às 8h. Andei até o ponto de ônibus mais próximo e lá fiquei por 5 minutos, 10, 15, 20... Por um momento pensei em voltar e pegar o carango e mandar o dia sem carro pra puta que pariu. Mas após 35 minutos vem um ônibus. No ponto não havia nenhuma indicação das rotas. Apelei pra sorte. Entrei e bati com a cabeça numa das barras, pois o motorista arrancou sem pena. Uma senhora em pé caiu no colo de um rapaz, amassando a maquete de arquitetura que ele tinha levado três semanas pra montar. Na faixa exclusiva pra ônibus, muitos carros e motos invadindo a pista, entre buzinas e insultos. Notei que o ônibus tomou a direção errada (eu ia pro CCHLA e acabei no HU) e pedi parada rapidinho. O motorista puto da vida freiou de vez o ônibus, me arremessando quase no parabrisa. Desci no lugar errado, andei quilômetros e cheguei atrasado na aula. Voltei desolado com saudades do meu carrinho.

Intrigado com a falta de adesão, fui pesquisar os fatos.
O senhor Marcos Donato tem uma caminhonete gigantesca. Seu filho Dóca tem uma maior ainda. A esposa dele, dona Nilda, anda com um carrão importado e Júlia Mabel, a caçula, tem uma troller. Desde novo, seu Marcos Donato, homem rude das bandas do curimataú, queria ter um carro grande. Dizem as más línguas que ele foi vítima de chacota na sua juventude. Foi a um bordel da região e uma das meninas espalhou que a piroca dele nem cócegas fazia. O apelido Marcos Pimbinha ficou pra sempre na sua memória. Após dar um golpe traficando maconha em cargas de agave, ficou rico e se mandou pra capital. Aqui chegando, já casado com dona Nilda, comprou um baita apartamento e um caminhonete cabine dupla de última geração. Carro enorme. Freud explica: pau pequeno, carro grande. No carrão, seu Marcos Donato (ex marcos Pimbinha) se sentia um rei. Passava por cima de ciclistas, batia em motoqueiros, fechava carros pequenos, cuspia em mulheres motoristas. No dia sem carro, seu Marcos matou um gato e atropelou um ciclista.

Dóca Donato dirige velozmente sua caminhonete importada. Geralmente anda só naquele carro gigantesco. Às vezes anda com alguma loura de chapinha. Nos finais de semana, ele para seu carrão num posto de gasolina, abre as portas e solta música sertaneja e forró de plástico para todos ouvirem. Gosta de whisky falsificado com energético e sempre que pode, atropela alguém na madrugada quando avança nos sinais vermelhos super bêbado. No dia sem carro, ele subiu numa calçada pra cortar um ônibus e derrubou um poste.

Dona Nilda ainda não aprendeu a dirigir direito. Seus reflexos nunca foram bons e agora, com o mal de Parkinson, andam bem piores. Mas ela insiste em dirigir. Todos os dias, pega seu mega carrão e vai à cabeleireira. Geralmente estaciona na calçada, e as crianças de uma escola vizinha se arriscam tendo que andar no asfalto porque o carrão toma toda a calçada. Dona Nilda odeia pedestres. Acha que o povo é burro e andar de ônibus ou à pé é coisa de pobre. Foi visitar Paris e voltou enfezada, dizendo que os franceses são pobres porque andam muito de metrô. Odiou Amsterdã, pois se lembrou dos tempos de pobre no curimataú ao ver umas moças andando de bicicleta. Lembrou-se que ela ia pro grupo escolar na garupa da bicicleta de seu primo e no inverno chegava na escola toda respingada de lama. No dia sem carro, passou por uma poça em alta velocidade e sujou uma freira que passava no local.

Júlia Mabel adora sua troller. É uma moça feia, com as pernas cheias de marcas de antigas perebas. Escraviza duas amigas que andam com ela por causa do carro. Já tentou por várias vezes seduzir o menino mais bonito da sala, mas ele tem carro também. Se contentou em ficar com um magricelo que dirige a troller em troca de favores sexuais. Apesar de morar a duas quadras da escola, Júlia Mabel vai de carro pra impressionar as colegas. Comprou sua carteira de habilitação no curimataú e já atropelou duas velhinhas que saíam da missa e um pastor que pregava no busto de Tamandaré. No dia sem carro, conseguiu a proeza de invadir a faixa exclusiva de ônibus, provocando um engarrafamento de 2 km e um engavetamento com 6 veículos e uma ambulância do SAMU.

Drink para um dia sem carro:

1 copo de conhaque
1 lata de energizante
3 lexotan (pra enfrentar os abusos de andar de ônibus numa cidade que não dá a mínima pro transporte público)

quinta-feira, 14 de julho de 2011

ENQUANTO ISSO NUMA LIQUIDAÇÃO...

Edna Ermelina (maldita mania de juntar nomes de avós) insistiu com seu pai para ir a um shopping em liquidação. Nenhuma novidade, pois a vida cultural da cidade se resume a dois eventos anuais e de resto... shopping.

Seu Chico Olavo, pai de Edna, teve a menina já depois dos 50 anos, abusado da sua esposa e abandonado pela amante. Dona Ava Gadner Santos (maldito costume de colocar nomes de atrizes nas pessoas), sua esposa, foi glorificada numa igreja evangélica com o dom de Sarah e teve Edna aos 53 anos, porque nas condições em que se encontra, esperar pelos 90 anos ao lado do marido ia ser um martírio perpétuo. Criaram a menina com muito zelo e a bichinha sempre foi nervosa porque desconfiava que era adotada. Apelidado de “gala rala” na sua cidade natal, agora seu Chico Olavo podia se vangloriar de estar funcionando a pleno vapor mesmo com 60 anos. Ele não se lembra bem da noite em que Edna Ermelina foi concebida, mas nem perguntou a dona Ava Gardner. Tinha tomado viagra pra visitar sua amante de 23 anos, e como ela tinha ido pra uma balada, resolveu pegar a velha esposa já com os bobs no cabelo pronta pra dormir.

Edna Ermelina, agora com 15 anos, queria comprar muitas roupas pra impressionar as amigas da escola. Cliente vip das lojas Marisa, agora teria chance de comprar roupas de grife. Convenceu seu Chico a ir, na esperança que ele fosse sorteado com um carro na liquidação. O velho sofria de hérnia de disco e tinha um esporão no calcanhar que o matavam. Edna e mais duas amigas chegaram às 8 horas no portão principal. Às 9 já havia uma multidão se matando pra invadir as lojas de grife. Seu Chico Olavo, espremido na multidão tentou acender um cigarro de palha e quase foi linchado pelos jovens politicamente corretos, que não bebem e nem fumam, só tomam bombas anabolizantes, rivotril pra dormir e prozac pra sorrir.

Abriram-se as portas da esperança. Edna correu louca pras lojas de grife. Sonhava com sapatos a 30 reais, camisetas de 25, jeans de 70. Nas primeiras três lojas quebrou a cara. Peças caras, outras defeituosas, a maioria de tamanhos gigantes, ou seja, raspas e restos que a poucos interessam e cabem. Com a pressão 20 por 11, seu Chico tentava se recuperar de um atropelamento que sofreu por 5 adolescentes se rasgando por um vestido falsificado de uma marca americana. É que algumas peças made in 25 de março foram cuidadosamente colocadas entre as peças em liquidação pra agradar a clientela insuportável de novos ricos leitores das revistas fashion de João Pessoa.

A coitada da Edna Ermelina não teve sucesso na sua busca. Acabou numa loja popular, também em liquidação, comprando peças da coleção inverno 2009. Ligou brava pra seu pai. Seu Chico saindo de uma crise hipertensiva agora buscava desesperadamente um banheiro. Entrava de loja em loja pedindo pra usar o vaso, e ficou impressionado como era que as lojas eram tão grandes mas sem privada. Chegou, enfim, tirou o bolo de nota do bolso e foi pagar o novo guarda roupa de Edna. Recebeu o troco e um punhado de cupons pra concorrer ao carro. Edna, um pouco puta da vida, mas já conformada, levou as amigas e o pai pra lanchar na praça da alimentação. Pediram Mac lanche feliz, enquanto seu Chico procurava uma tapioca. Edna se emputeceu com o pai e exigiu que o velho comesse salada de salmão, última moda nas revistas fashion da capital que ela lia nos consultórios durante à espera de mais de 5 horas de seu plano Unimed. Como toda gatinha new rich ficou comendo e abrindo os pacotes na mesa. Depois obrigou seu Chico a preencher os cupons do sorteio, mesmo sabendo que o pai tinha glaucoma ulcerosa crônica.

Contente e cheia de sacolas da Riachuelo, Edna Ermelina resolveu distribuir os cupons em várias urnas. Numa luta constante nos corredores apinhados, como uma batalha de filmes épicos, Edna arrastava seu velho pai esmurrando velhinhas, acotovelando crianças, para chegar nas urnas espalhadas por todo o shopping. Seu Chico Olavo, numa mistura de arritmia cardíaca com dor no nervo ciático, se perdeu da menina durante uma briga de duas madames por uma sandália de uma loja de marca. Depois de uma tamancada no cocoruto, uma senhora desmaiou e sua oponente saiu vitoriosa pro caixa, pra pagar a sandália no hipi em 12 vezes.

Já na saída, aborrecida com o pai, Edna Ermelina viu um sapato de griffe igualzinho ao da atriz de Rebeldes. Deixou as sacolas com pai carcomido de fome, sede e dores generalizadas e saltou freneticamente pra loja. O sapato era 40 e ela calçava 36. Nada que o jornal do velho pai e o algodão da mãe não resolvessem. Comprou o sapato de verniz, meio riscadinho e com sinais de que já havia sido usado, sacou sua câmera da bolsa e obrigou uma de suas amigas tirar uma foto do sapato novo pra colocar no orkut assim que chegasse em casa. Seu Chico, implorando pra ir embora, passou 1 hora e meia pra sair do estacionamento. Chegou às 2 da manhã em casa, feliz por estar vivo e ter feito sua filhinha feliz, feliz.

Drink liquidação:

1 dose de campari
dois lexotan
Tome de um gole só e vá ser feliz no mundo do consumo e do engano

domingo, 5 de junho de 2011

ENQUANTO ISSO NUMA REVISTA CHIQUE...



Raimunda Tenório herdou um império de produtos de atacado no interior da Paraíba. Bronca e rica. Tudo que os sanguessugas da capital precisavam... Sua filha, Rainilda (Rai da mãe Raimunda e nilda do pai Francenildo) vivia desapercebida pela hi(?)society pessoense até que...

Lord Pink, famoso colunista da capital, resolveu dar um golpe na família Tenório, agora estabelecida em João Pessoa. A moça Rainilda iria ser capa de uma das revistas mais chiques do mercado de moda da cidade. Seguinte: temos aqui um promissor mercado editorial de moda e glamour. Revistas caras, bem editadas e distribuídas gratuitamente em pontos chiques da capital. Pessoas desconhecidas que querem aparecer nas imitações de Caras locais. Hum... Desde que paguem uma fortuna!!!

Rainilda tinha 16 anos. Lord Pink insistiu com a mãe dela para fazer uma festa de debutante, pois a criatura era desconhecida e ninguém iria saber a idade dela mesmo. Lord Pink estava devendo horrores aos 8 cartões de crédito que tinha. Só o cartão de um supermercado da periferia ainda aceitava suas compras. A concessionária tomou o carro que ele desfilava com tanto orgulho. Estava morando de favor no apartamento de uma senhora da elite que sofria de Alzheimer. Sua estratégia de ir aos desfiles e “levar emprestado as roupas para melhor examinar” já não colava mais. Tinha ainda 300 reais de um convite que recebeu e vendeu para um casal de novos ricos numa festa em São Bento. Dois restaurantes famosos da cidade proibiram sua entrada por sucessivos calotes.

Mas agora ele se juntou a uma destas revistas chiques e iria faturar em cima da riqueza da pós-debutante Rainilda Tenório. Não convenceu a velha, mas a filha ficou louca pela ideia de sair na capa de uma revista famosa, fashion, para fazer inveja às colegas de classe. A menina era uma cratera só. Feia e estilo barraqueira, bateu o pé e “mainha” teve que ceder aos berros histéricos da filhota. A revista vivia de propagandas e eventos de festas de novos ricos. Alguns médicos, esteticistas e donos de lojas anunciavam nas páginas, mas o forte da empresa era mesmo cobrar rios de dinheiro pras novas carrancas aparecerem no cenário chique da capital. Assim foi com Rainilda.

Depois de um mês sem comer pipos e mungunzá, Rainilda foi fazer um dia de noiva completo num salão chique da cidade. Haja maquiagem. Lord Pink levou a moça para fazer fotos na ilha de Fernando de Noronha, pois ele nunca tinha ido lá. Rainilda subiu num penhasco e despencou  numa terrível queda. Voltou toda inchada e arranhada pra João Pessoa para sua festinha de 15 anos. 

Num salão super chique, Lord Pink recebia as pessoas, na sua maioria gente que nem sabia quem era a aniversariante. Boca livre chique é sempre bem vinda. Para os novos ricos, com a promessa de também aparecer na revista, ele cobrou 100 reais o convite. Tudo lindo. À meia noite, descendo a escada, eis que surge Rainilda com seu pai. O velho tinha tomado todas e tropeçou no vestido da moça,  rolando escada abaixo. Lord Pink prontamente chamou o SAMU e mandou caprichar nos salgados para ninguém notar. Na hora da valsa, o primo de Rainilda a tomou pelos braços e dançou valsa como quem dança forró no interior. Mas as pessoas não estavam nem aí para os eventos. Fotos, muitas. Rainilda com a mãe, com a avó não-sei-o-que-estou-fazendo-nesta-merda, com os primos forrozeiros. A mãe, na hora do brinde, se engasgou com o champanhe e cuspiu em cima do bolo sua perereca nova. Lord Pink disfarçou e cobriu tudo com a tolha de mesa.

Lá pras tantas, os primos de Rainilda já putos com as músicas, exigiram que tocasse forró. Rinaldo, um dos primos já bêbado, foi no carro e trouxe os cds que iriam rolar: Forró da Xeta, Garota Safada, Forró das Nega. Tiraram os blazers e ficaram do jeito que o diabo gosta. As amigas jogaram o salto alto fora e foram forrozar. Um cheiro estranho de perfumes franceses falsificados e suor invadiram o ambiente. Um grupo de chiques achou aquilo exótico. Um senhor muito respeitoso levou uma cantada na saída do banheiro de uma amiga de dona Raimunda. Ofereceu viagra ao nobre senhor. Lord Pink, já precavido, subornou dois garçons para que eles separassem duas caixas de whisky pra ele (nunca se sabe como vai ser o futuro, não é mesmo?). Várias senhoras foram saindo da festa com os enfeites da decoração do salão de festas. Não sabia Lord Pink que ele iria ter que pagar por tudo isto...

Um mês depois, enfim a revista. Embora com photoshop, as fotos ficaram um terror. Gente feia é gente feia com ou sem tecnologia. Mulheres gordas em roupas de festa apertadas. Homens sem blaizer e com uma roda de suor na camisa. Lord Pink sorrindo com sua dentadura recém clareada. 

Dona Raimunda, cobra criada no comércio, descobriu as falcatruas de Lord Pink e o fez pagar pelo whisky roubado e por um faqueiro de prata que ele havia vendido a um casal de novos ricos do brejo. Sem carro, sem dinheiro, Lord Pink ficou pensando no seu próximo golpe publicitário. Novos ricos servem pra isto, afinal.

Drink revista chique:

1 dose de whisky falsificado;
Muita água de côco;
Geladose à vontade;
1 engov (opcional)

quinta-feira, 19 de maio de 2011

ENQUANTO ISSO NUMA LISTA FANTASMA...



Seu Hermenegildo Lemos, senhor honrado e muito conhecido, morreu em 1991. Sua filha, Maria de Fátima chorou muito no seu velório ao ponto de até hoje continuar recebendo o salário de 3 mil reais do falecido pai. A família dela e um deputado ficaram indignados com a publicação de duas listas nas quais constava o nome do falecido e a denúncia que ela estaria recebendo a grana de um fantasma. Como alguém poderia violar o sacro nome de seu Hermenegildo com tamanha leviandade?

Chamada a se explicar, Maria de Fátima se defendeu se dizendo médium encorporadora e que recebia o espírito do seu pai sempre no dia do pagamento do Estado. Sua irmã Doralice Amélia, uma das organizadoras da Marcha Para Jesus, prometeu organizar também a Marcha dos Mortos sem Salário, reunindo os fantasmas que saíram nas duas listas. Muita gente. De um lado mortos que recebiam salários e de outro, mortos-vivos que recebiam sem trabalhar.

A concentração da Marcha dos Mortos Sem Salário será no Cemitério da Boa Sentença até o Busto de Tamandaré (tudo acaba neste busto). Ao som de Thriller de Michael Jackson, as famílias dos fantasmas e alguns fantasmas bem vivinhos irão percorrer a avenida Epitácio Pessoa protestando pela injustiça de ter seus salários cortados. Um trio elétrico com telão gigante de led passará o filme A Hora dos Mortos-Vivos.

Mas esta onda de fantasmas e mistérios em João Pessoa é algo mesmo sério. Doca Braga, meio-irmão de Maria de Fátima, um assalariado do Estado que ganha 1200 reais, anda de Hilux. No seu carro está escrito “Foi Jesus quem me deu”. Incrível como adesivos de doações aparecem nos carrões da burguesia pessoense: “Este foi presente de Deus”, “Ganhei de Jesus”, “Propriedade do Senhor Jesus”. São carros roubados, lavagem de dinheiro, mas todos abençoados por Jesus. Êita Glória!

Antes da Marcha acontecer, a maioria destes sanguessugas irão pra palestra do renomado pesquisador Augusto Cury: “Como enriquecer dizendo bobagens aos novos ricos”. Claro que só quem enriquece é o próprio Augusto Cury!

E assim prossegue a vida pessoense: Augusto Cury, Herbalife, carrão abençoado, vida fácil ganhando sem trabalhar, salários de parentes mortos e a parentalha sugando as tetas da vaca magra chamada Paraíba.

Drink para os mortos-vivos:

1 dose de água benta ou água do rio Jordão
1 litro de vinho Carreteiro
2 doses de pau do índio
1 dose de Dreher
Misture tudo e tome. Depois disso, você estará mais morto do que vivo!

quarta-feira, 13 de abril de 2011

ENQUANTO ISSO NUMA LOCADORA DE MULHER...

ENQUANTO ISSO NUMA LOCADORA DE MULHER...

Cajazeiras é conhecida por suas belezas, seu povo progressista e sua vida cultural abundante. Dayanne Mary cresceu naquela terra maravilhosa e já graúda resolveu pegar um dinheiro de herança e abrir uma locadora, uma locadora de mulher!

O negócio era simples. Ela iria abrir um bar e oferecer aos clientes, além dos drinks e petiscos, um serviço de tele sexo 24 horas via celular. Cadastrou no seu celular mais de 56 meninas de programa e um amigo seu, webprogrammer celulator, criou um sistema no qual após ligar pro número da locadora de mulher, o cliente ouvia o seguinte menu:
tecle 1 para louras, tecle 2 para morenas, tecle 3 para negras; tecle 5 para voltar ao menu e vá tocar uma;
após a escolha, outro menu:
tecle 1 para uma completa; tecle 2 para uma meia; tecle 3 para uma rapidinha; tecle 4 para boquete, tecle 5 para voltar ao menu e vá tocar uma;
após esta nova escolha:
tecle 0 para outras opções...
Depois o cliente falaria com a menina e marcaria o encontro no bar de Dayanne Mary.

Uma carola de igreja soube pelo sacristão que o cunhado dela havia solicitado os serviços da locadora de mulher. Prima do juiz e amante de um político local, acionou seus contatos para impedir aquele descaramento. Um liga de moralistas fez um abaixo-assinado para fechar o bar de Dayanne Mary. Lucas de Maroca, conhecido raparigueiro, se encarregou de passar a lista para as pessoas de bem. As mulheres casadas assinaram em massa e obrigaram os maridos, mesmo os já conhecidos chifreiros, a também assinar. O chefe do movimento gay fez questão de assinar, porque achou sexista a atitude de só ter mulher e nenhum bofe para locação. Uma feminista o acompanhou porque achava que as meninas não entravam na categoria mulher-emancipada-empoderada-empoeirada. Duas sapas foram obrigadas por suas namoradas a assinar o documento. Um daqueles intelectuais com cara de meio abestado e meio tarado, me parece que antropólogo, tentou em vão fazer uma pesquisa participante para um mestrado destes que estudam tudo.

O alvará de Dayanna Mary foi assim cassado. Desolada e perambulando pelas ruas da amargura, ela foi acolhida por uma igreja evangélica. O pastor e sua mãe levaram Dayanne para um rio quase seco e a batizaram para livrá-la das artes do satanás. Um irmão da igreja quis pegar o celular de Dayanne para tirar todos os demônios e maldições daquela locadora infernal. Vendeu a locadora de mulher para um diácono de uma cidade vizinha que locava as meninas e rachava os lucros com um pai de santo que cedeu uma casa para os encontros e para um pastor ex-traveco que às vezes atendia os clientes quando as meninas faltavam.

A paz foi assim estabelecida na pacata cidade. Mas o número da locadora de mulher é ainda disputado a tapas...

Drink locadora de mulher:

um copo de pau do índio
uma pitada de catuaba
disque 0800 meia dura meia mole e siga o menu!